sexta-feira, 13 de março de 2009

Rio Soturno

Parou a camionete, o motor enfim entregue ao silêncio da natureza. Olhou para o lado. O vidro sujo, os restos da estrada e o barro atirado pela rodas do estradeiro, do velho Jeep em que estava assentado com seus pensamentos, tudo isso dificultava a visão do rio. Mas ele estava ali, próximo, correndo, silencioso, rasteiro, guardando algum mistério. Talvez escondesse algo que Luís, o motorista ali parado, não conseguisse ver, mas intuía. Seu espírito aventureiro, tão elogiado dias atrás pela diretoria do Clube dos Jipeiros, estava, afinal, prestes a descobrir porque o Rio Soturno levava aquele nome. Era uma descoberta, e era preciso uma descoberta para ganhar o cobiçado certificado de aventureiro do clube. Faltava um único ato, identificar e informar ao mundo que um lugar inóspito e não explorado fora descoberto. A paisagem, contudo, transmitia calma; a noite caminhava no céu áspero e os últimos restos de vermelho refletiam nas águas escuras do Soturno. E mais uma vez Luís pensou na inferioridade de ser um jipeiro há tanto tempo e há tanto tempo ainda não ter descoberto nada.
O rio, calmo, escondia em uma de suas curvas, lá adiante, um pequeno casebre, àquela hora ainda às escuras. Sentado na frente da varanda da pequena casa, podia-se ver, mesmo de longe, um homem. Era a oportunidade.
Ligou o carro, e o ronco do motor espantou o silêncio e toda a vida ao redor. A revoada não distraiu o jipeiro. Lento, ele foi movimentando aquela estrutura metálica e fortificada, não demorou para encostar ao portão da casa. Tudo ali era de uma decadência assustadora. A chegada da noite não apenas acentuava as cores pálidas do cenário como escondia o rosto do velho homem sentado no vazio de um banco. Diante das águas do Soturno, fixo, ele olhava.
As boas-noites foram lentas, e as palavras seguintes, sobre o tempo, o fim da tarde, a noite, resumiram-se quase que tão-somente às perguntas de Luís e ao sim, ah-rã, talvez do velho senhor. No momento certo, angustiado pela chegada da noite e pelos monossílabos do outro, Luís precipitou a pergunta.
Um raio cortou o céu no mesmo instante. Resposta não houve. A chuva caminhava. E no minuto seguinte, mesmo que os minutos fossem dias naquele sopé de mundo, o homem sentado levantou-se, apanhou o que parecia ser uma mala ou valise, cruzou pela ansiedade de Luís e pelos faróis acessos do Jipe, cortou a estrada, e num vão da mata, entrou rio adentro.
O farol da direita piscou; era bem possível que a lâmpada, entregue aos dias de procura, queimasse antes de retornar à cidade. A estrada era longa, sinuosa e o silêncio escuro do Rio Soturno acompanharia Luís e suas perguntas.

1 ComentÁrios:

Anonymous Anônimo said...

Lembro que existe um Rio Soturno na região de Nova Palma/RS. Existe, inclusive, uma cidade chamada Faxinal do Soturno.
abs

quinta-feira, 26 março, 2009  

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