quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Gancho

 Nem bem havia subido as escadas que dava acesso à embarcação e ouviu atrás de si aquela voz rouca na escuridão:
– Boa noite.
Era um boa noite carregado de um sotaque pastoso, de gente lá do Oeste. O capitão foi rápido, e virou-se:
           – Quem sobe lá?
A resposta era calculada, intervalada, silenciosa, e a chuva era apenas um estorvo a mais no diálogo:
– Sou o candidato à vaga de marinheiro. O sobrevivente. O único. Do naufrágio do SS Oregan. O senhor deve ter lido nos jornais.
– Eu não leio jornais; eu comando este barco.
Ficaram se olhando por um tempo – e o tempo apertando – da maneira que podem se olhar dois estranhos a certa hora perdida da noite, já madrugada, cais do porto vazio, região afastada, cidade de Portland. A figura que chegara junto e no encalço do capitão era ainda mais escura sob uma capa preta, os pingos escorrendo pela beirada, enquanto ao lado o braço do homem carregava um longo metal encurvado, semelhante a um pequeno arpão. O comandante da embarcação retomou:
– Mas ouvi falar do fim do Capitão London. Afundou o próprio barco como me contaram. É uma história estranha, não acha filho?
Novamente silêncio, o mais novo não respondia, e o único som entre aqueles dois homens vinha apenas do contínuo cair das águas, chuva imprópria a atrapalhar aquele dia de negociação. O capitão não desistia:
– Quer dizer que ele afundou o barco, foi isso que contaram? Fiquei sabendo que depois foi encontrado com um rasgão no meio das costas, a milhas do desastre... Como se um arpão tivesse sido atirado contra ele.
Os dois homens ainda ficaram se olhando um tempo, o recém-chegado mirando para todos os lados do convés, como se buscasse a presença de mais alguém, enquanto o capitão permanecia parado, olhar fixo nos movimentos do outro.
– Nada sei. Fui resgatado entre os últimos escombros do que sobrou por outro barco pesqueiro que passava, explicou o novato.
– Então quer dizer que não sabia nada sobre a traição sofrida pelo velho Jack?
Mais uma vez o silêncio ocupando largos espaços na conversa, acompanhado por novas golfadas de chuva fria, cada vez mais forte, horizontal, indireta. Ninguém ali conseguia ver nada. E enquanto o novo marinheiro ia subindo a rampa e afastando a água com seus passos pesados, o capitão recuava, e recuando ficava cada vez menor diante do gancho que agora subia e brilhava pelas linhas turvas do céu-horizonte, o palpitar dos ânimos, o barco a balançar nas águas inquietas da dúvida, quem seria ele?, e ele era o único marinheiro sobrevivente do terrível naufrágio do pesqueiro SS Oregon, cujo capitão, o velho Jack London, foi encontrado morto com uma fisgada nas costas, segundo contaram, ninguém mais sabe, ninguém mais viu.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Expurgo


Se eu não tomar cuidado, perderei o costume de estar com outras pessoas.
Sherwood Anderson
In Winesburg, Ohio

No corredor do hospital, um diálogo entre médico e paciente tem a rapidez dos insucessos.
– É definitivo, doutor?
– Seis meses de vida.
Estamos em pleno atendimento público, nesses corredores brancos da ineficiência do serviço público. O paciente lembra alguém esquecido – e ele olha fixamente para o médico na porta do consultório. Nem pode entrar, e motivos públicos e privados impediram que o médico desse maiores explicações.
– O que não tem solução, solucionado está; nosso tempo terminou. Era a voz de termômetro do médico, num gesto de alguém que solta o outro no abismo.
O médico fala, depois roda sobre si mesmo e sai caminhando pelo quadriculado das paredes encardidas daquela instituição hospitalar; neste momento o paciente também se vira, e diante dele, do outro lado do corredor, numa pequena porta, a placa:

                                               EXPURGO

Nada poderia ser mais conveniente nesta hora.

                                               ***

Ainda no corredor do hospital, a placa o acorda para outra necessidade premente, sua, atual: o que é afinal expurgo?
Diante da placa, feito animal, besta, criatura pronta para o abate ele lê e relê a placa... E neste abandono em que se encontra, o absurdo de pensar nisso quando você acaba de receber a notícia definitiva, aquele marco, limite, ponto final.
– Seis meses de vida.
Estamos num hospital. No centro do corredor, o olhar deste homem sobe e desce, acompanhando a neutralidade das paredes brancas, flutua, então tudo se fecha ao seu redor, a notícia cria ângulos, afasta perspectivas, e uma voz suave lhe diz:
– Nosso tempo terminou.
Eis a única notícia a sofrer expurgo de dentro dele, então ele abre a porta e entra.

                                               ***
A placa. O hospital. Cujo nome, Santa Terezinha, lembra a este homem, o paciente, o expurgo de algum outro abandono.
Tereza. O nome. A esposa do sujeito enjalecado. Também ela tinha dito, e agora tudo faz o maior sentido:
– É definitivo.

E nada mais.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Almoço

In memoriam

Estranhei naquele dia ela ter me convidado para almoçar, entre nós, algo até então raro. Tinha ela a idade de minha mãe, os seus cabelos eram os meus cabelos, seu caminhar (eu já havia reparado) lembrava os passos do jeito de andar que um dia foi de minha mãe – antes de ela morrer.
Quem me convidou foi Dona Lúcia, ou Lucinha como todos a chamavam na secção da contabilidade da companhia. Que apareceu à minha frente no estertor do final da manhã – meio dia cheio de fome – e eu levei um tremendo susto. Foi logo me convidando, entendi que era assim meio determinando (afinal ela era a minha chefe):
– Vamos almoçar? Não esquece de levar um documento.
Era mesmo para ser esquisito aquele dia: alguém te convida para almoçar e no alto dos teus desesperados 32 anos, sim, você já seria bem capaz de saber que nunca se anda no Centro Histórico desta barbárie sem portar documentos.
– A identidade, era ela, novamente do seu jeito, sempre rápida e minuciosa, foi logo me cercando como se já estivesse esperando que eu abrisse a bolsa, mostrasse a carteira.
Daí apanhou a minha mão.

***

Na mesa, notei que ela me olhava além do que seria recomendável num almoço entre duas pessoas de idades tão continentais. Queria apenas me ouvir, revelou. Mas era como se buscasse em mim algum traço distante. No entanto conhecia-me muito bem desde a formatura em Ciências Contábeis, quando o seu presente alcançou valores constrangedores para a ex-estagiária que eu era, recém-contratada pela WS Auditores. Mas eu estava feliz – e feliz vivi estes últimos nove anos lá na empresa. Sem percalços ou dificuldades, ali o meu caminho foi facilitado de forma muito tranquila; a tal ponto de hoje também ter meus próprios subordinados no mundo das contas e do realizável. E havia Dona Lúcia, sempre presente, ali próxima, acompanhando a minha carreira numa distância regulamentar. Pragmática na orientação, e por isso sempre me pareceu muito rígida. O afeto, este nunca foi o seu forte.
Até aquele dia.
Quando, terminado o almoço, ela novamente agarrou a minha mão (eu já não estava mais acostumada aquilo), agarrou de uma forma como fazia a minha avó (um tempo ficou nisso), e do jeito carinhoso que só os avós sabem fazer, e em seguida levou-me do restaurante até o prédio vizinho, bastante conhecido pelas formalidades do seu negócio, e numa fala alegre picante foi logo dizendo:
– Agora a sobremesa.
O dia era de estranhezas mesmo.
O cartório: prédio de arquitetura ríspida, de interior enxuto e escuro, local onde a rigidez e o alinhamento do balcão das mesas contrastava com os excessos de intimidade do tabelião, que ao nos ver foi assim-sorriso-braços-abertos:
– Então ela resolver vir, Lucinha?
Nada entendi.
Como de resto não entendi a disposição testamentária que me fez sua única herdeira.



Novembro de 2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Sobre formigas (e mortos)


Na reunião do grupo de trabalho de prevenções a epidemias, quando pediram o açucareiro para dosar o cafezinho, alguém apontou e foi logo avisando:
– Está cheio de formigas.
O representante dos estatutários veio em auxílio com o velho clichê, comentário com gosto de mala:
– Dizem faz bem para os olhos.
E todos riram.
Depois silêncio.
Que foi quebrado desde a outra extremidade oval da mesa pela diretora do hospital, que aos gritos irrompeu:
– Do açúcar ao morgue, e vice-versa; caminham por todo o hospital; não respeitam nem os mortos. Praga.
Todos estancaram suas xícaras no ar, movimento paralisante e nervoso – e o café foi definitivamente rejeitado naquele dia; dia que ficou consagrado a explicações sobre a organização das formigas e seus caminhos pelos corpos mortos da câmara mortuária. Onde, agora todos sabiam, também circulavam os pequenos insetos.

O único que continuou bebericando seu cafezinho foi o Hidelfonso, mas Hidelfonso não conta, ele sempre foi um peso morto na assemvleia dos mortos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

As pequenas mentiras

Ligo para o amigo que está de aniversário numa dessas capitais litorâneas de coisa nenhuma e digo:
– Estou escutando Elis Regina em homenagem ao amigo. E aí, como vão as coisas nessa capital da fantasia? Muita saudade da província?
É uma pequena mentira, como seria mentiroso dizer que estou escutando Elis Regina em comemoração aos seus 70 anos – mas eu pergunto o que é uma pequena mentira quando um oceano de distâncias nos separa? Quando não há nenhum equívoco em dizer que já estamos separados a um tempo tão longo e distante que eu nem lembro mais o seu nome. Lembro passeios, encontros, conversas, sonhos, desentendimentos, aquela circunstância que eu sempre crio de ficar longe do fato de estar bem perto de ficar cada mais longe, este círculo:
Ele me perguntando:
– Que surpresa é essa se... se não nos vemos há tanto tempo, não é mesmo, José?
Eu grudado ao aparelho, neste linha frágil que nos unia, a dificuldade de continuar aquela conversa, levar adiante tanta ironia, toda essa poesia que sempre foi o forte dele, enquanto dentro de mim jogo, subterfúgio, espelhamento, vazio.
As pequenas mentiras.
A primeira delas: a de acreditar que estou conversando com alguém, que estou aqui, que escrevo, sinto, antevejo:

Fim.

domingo, 31 de julho de 2016

O colchão

Dona Maria de Lourdes ainda não sabe, mas foi no mesmo instante-segundo-momento em que escutou o baque, o estalo surdo de madeira partida, que sua estratégia se foi. Desandou. E com ela partem abraçados juntos e de mãos dadas todos os seus sonhos. Os de garantir uma vida segura para sua única amada filha.
Quanto ao som abafado deste desdobramento trágico, Maria de Lourdes sabe de onde vem. Dos fundos da casa, do quarto da filha Giovana, a menina crescida que há poucos dias completava quinze anos. Comemorados com bolo caseiro e aquele inusitado presente – sobre a cama jaz agora... um colchão. Dobrado, o estranho presente ganho da mãe pela menina Giovana é a prova seca daquela vilania materna, do desastre de uma tosca estratégia mal pensada. O colchão. Esta é uma história de erros e medidas.
No quarto, sobre o dorso afundado na cama, repousa o inusitado presente da mãe, este objeto de casal que surgirá depois aos olhos espantados dos vizinhos que acorreram à gritaria, para saberem da cena, esta mesma encenação que a mãe agora assiste agora como a um fado, fato sobre o qual nada mais pode fazer, pobre destino... Quem sabe um aviso de que não seria mesmo desta vez que deixariam aquela vida de miséria-periferia-violência. Contudo hoje, para os intentos rudes e práticos da dona-de-casa Maria de Lourdes, hoje ela descobre que os seus sonhos não se realizarão. Definitivamente, hoje não.
E tudo porque ao entrar no quarto da tragédia consumada ela encontra quem ela sabe que iria encontrar: os dois. Mas não é o fato de haver no quarto, sobre a cama partida, dois seres, duas pessoas adolescentes, sua filha e o rapaz do colégio, não é isso o que lhe causa mais espanto. Isso ela já sabia pelo pacto sinistro, pretérito e acordado com a filha. É antes o fato de não ter se lembrado da cama, da estrutura quem sabe frágil daquela antiga cama de casal, antes sua, por anos e onde seu marido tanto a maltratou antes de partir de vez embora; agora a cama foi destacada para o quarto da filha, naquela missão; e o que mais lhe mói por dentro, agora, é ter lembrado apenas do colchão. Quando então descobre afinal que foram as condições da cama que impedirem o ato-fato-consumado, ali, a filha trazendo o suposto namorado, segundo os cálculos da mãe, o futuro esposo, o bom-partido que traria prosperidade à família. Não – tudo acaba no chão, ou melhor, na cama que se partiu enquanto dobrado – mas intacto, novo – aquele colchão.

Também como saber que o sujeito ali deitado era ele o verdadeiro amor da filha, e não o príncipe encantado tão desejado e escolhido a dedo pela ambiciosa mãe dentre os pares da filha no colégio dos ricos. Esta mãe que agora chora à porta do quarto ao testemunhar o instante dantesco daqueles dois juntos, agarrados: sua doce e delicada filha acompanhada daquele sapo gordo brutamontes – quem-quem-quem? – ora, aquele inútil do Zé Maria, o pesadinho do Beco de Trás.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O último otário

 Quando o chefe chegou empolando sua voz numa sintaxe contábil confusa foi aí que ele me contou:
– Desde estagiário já sabia que o melhor é sempre carregar um ofício nas mãos; assim ninguém me dá trabalho.
Foi então eu não tive mais dúvida – e a ideia.
Olhei o ofício em sua mesa como quem olha um objeto qualquer, visitando morto no enterro desavisado.
Tratei logo de desviar o assunto para o crescimento em forma de bolha da empresa; as contas pendentes, as despesas correntes; também lembrei de comentar sobre a nova remessa de equipamentos, as promessas de lucros e dividendos, e foi mais ou menos por aí que aproveitei sua empolgação (ele sempre ergue os olhos feito profeta), olhei para os lados (não havia testemunhas), deslizei a mão sinistra e surrupiei aquele ofício importante, sempre sorrindo num exercício futuro.
Tinha gosto ruim aquele ofício, mas o que fazer se você tem que eliminar provas antes de sair? Percebendo o meu transtorno, aquele mal-estar repentino (indigestão), ele ainda foi solícito e me ofereceu um copo de água.
Eu tinha sede.
Era como se eu tivesse me engasgado diante dele.
Muita sede.
Havia graça ele me servindo água?
Bebi, depois sorri.

Estava eu diante do último otário... e não sabia.

sábado, 21 de maio de 2016

GW

            No entardecer destas luzes artificiais – o leito de morte em que entreguei a parte capitalizada do meu dia – a sala da contabilidade – encontro-a no olhar rápido dos que estão à beira da entrega, dos que estão de saída, e tenho um só pensamento: chamar a sua atenção.
            Falo de bancos.
            Duplicatas.
            Saldos duvidosos.
            E penso no meu coração amortizado.
            Esta mulher: GW Financial Times,

            Meu amor diferido.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

DP


Inspirado numa história de bar

              Outra vez nas ruas – à procura.
        Durante anos, sozinho, nenhum outro divertimento que não fosse a lembrança daqueles gloriosos dias,  a dois; noutros a três, fosse quatro só o desempenho em cena contava.
          Agora pelas ruas, o circuito sinuoso pelas ruas internas do Bairro dos Prazeres/Brás, em busca... Sim, em busca dela, a parceira.
            Foram anos e anos de produção nos ambientes mais escusos da indústria cinematográfica. Os companheiros de set. As beldades. Ela. A delegada. Minha carreira interrompida – e toda produção abruptamente encerrada, no auge, por conta daquela brincadeira.
             Meus amores na delegacia.
             Dois bandidos. A delegada. Eu fazendo o papel de durão, comandando a cena. A três.
             Então alguém da Corregedoria não gostou; censuraram o filme; acabaram com a produção.
             Faltava fechar a Boca do Lixo.
            Fecharam. Anos 1980. Repressão.
           Agora nas ruas, giro minha ânsia em busca da garota perfeita, o par, apelo sexual que ainda me move, dez ou doze comprimidos por dia, ainda consigo constituir isto: o desejo.
            Encontro-a no semáforo. Reconheço. Trinta anos esta noite. Arrancamos juntos, persigo, pelas ruas deste bairro, e depois de quadras – aquilo:
           Ela para, estaciona, vejo, miragem, talvez sim, quem sabe não é a filha da delegada, ou da atriz que fazia a delegada naquele filme pornô eternamente censurado.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Os comprimidos não mentem

Para C.D., pela inspiração

 A cartela na minha frente não mente. Ela me lembra o pesadelo periférico cujo desdobramento, vejo agora diante de mim: a dor de cabeça. Por um momento resolvida no instante exato em que a colega  vem ao meu socorro, apanha da bolsa, dentro dela retira a cartela e me apresenta : paracetamol.

Difícil não reparar no desalinhamento do pequeno envelope. Oito pontos. Dois abertos, os comprimidos já retirados. Um buraco no topo, à esquerda; o outro abaixo, no canto, à direita. Impossível não reparar no desalinho, a falta de sistemática de quem retirou os comprimidos e não seguiu padrão nenhum. Desordem. Esculhambação. Brasil. A nossa vida não tem que ser assim. Meu olhar é um jato, lanço a pergunta:

– Apanho aqui, ou ali?, e dizendo isto fui apontando os locais disponíveis ao lado das crateras aleatoriamente deixadas na cartela, isto nas outras duas vezes que alguém utilizou-se dos comprimidos...

A colega também me olha, parece pensar: Galáxia estranha esse sujeito. Porque é nítida a impressão que tenho dela não acredita no que está escutando. Parece perguntar: como alguém pode ficar pensando na ordem correta de retirada dos comprimidos de uma cartela estando, como está, altamente febril? Diga, como? E no entanto ainda permaneço diante dela um tempo, o olhar parado, de pé, sem sair do lugar, sempre com a cartela na mão, esperando sua decisão final.
– Qualquer uma.

É quando começo a refletir sobre a situação – não exatamente sobre o meu estado de saúde, não sobre o calor dessa febre alta, não sobre essa proximidade do caos –, quase esqueço o mal-estar, não; perco-me numa matemática absurda, o dedo a percorrer o envelope do medicamento, e então conto até dez, percorro a saliência de todos os pontos brancos redondos restantes da cartela e na lentidão dos enfermos eu aponto um dos comprimidos do canto restantes, estabeleço um padrão, quebro o plástico, deixo cair a pedrinha na palma da mão, e passo a enxergar um padrão claro e definido: cada uma das drágeas retiradas saiu de um dos quatro cantos – e tenho certeza que o próximo a utilizá-la saberá disso. Então fico mais tranquilo, sei, esse febre não vai baixar (há muita dor a me perseguir), mesmo assim ergo o copo d´água, engulo o remédio e fico por um instante acreditando que o mundo agora anda melhor porque os comprimidos, os comprimidos não mentem.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Hálito

Povo marcado / Êh, povo feliz!
Zé Ramalho

Vejo, sinto, entendi: tem vezes que até pressinto. Hálito. Bocas. Meus eros desejos correm soltos nessas ruas estreitas do centro da cidade. O passeio me condena: rumo em linha quase reta pelo calçamento dessas vias entreveradas de gente.
O povo.
Busco estas pessoas, o contato, realejo humano que me anima e remete a pretéritos sentimentos contidos (ora expandidos) de cirurgião dentista. Dias esses em que ficava no consultório até tarde da noite aplicado na vocação e às horas tardes atendendo a comunidade de necessitados. Tantos. Tolos (não sabiam) a me perseguirem em procedimentos administrativos escusos.
Hoje sou mais direto, enfático e – grande vantagem – não preciso do aparato de instrumentos, sala, cadeira reclinada, avental, e aqueles ridículos sapatos brancos. Poucos me exigem o suado aperto de mão.
Não.

Hoje não. Basta apenas encontrá-los, essa massa em pardo desmaio, engrenagem que cruza pelas ruas sem projeto ou futuro. Apenas vivem ou esperam novas possibilidades. E deixo alguns passarem. Antes seguro, palavra, braço: Como vai, lembra de mim? Apenas o suficiente para que por instantes sejam meus. O tempo suficiente para que possam chegar bem perto – e eu bem perto deles. Quem? Não lembro. E novamente reviver o único hálito das horas.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Fotografias



Nesses balanços que faço no último dia do ano, ao final da noite, sobram para mim a inaptidão com a lentilha, o desbunde com a espumante e a seleção de fotografias.
Para melhor dizer, nunca tive problema com lentilha – aquela tradição dos três pedidos que, hoje, pelas minhas contas, já somam quase uma centena de irrealizações. Hoje, é estranho, a lentinha queimou.
A espumante é o modo mais chique de coroar a bandalheira de um ano mergulhado em muito álcool, e se aqui escrevo é porque ainda não começou a noite. No último ano, ela terminou cedo, comigo deitado, falando sozinho no sofá deste amplo apartamento deserto.
Tudo começa a se complicar quando chega a hora das fotografias: todas aquelas que queimo na churrasqueira no final do ano, numa tentativa clara e persistente de apagar o meu passado – e o passado se arrasta atrás de mim. Festas. Falsos convidados. Família. A solidão das festas em família.
Este ano decidi fazer diferente. Fui procurar fotos na internet. Comecei pelas mães. Procurei várias – e várias eu encontrei.
Passarei a última noite do ano com elas.

Escrito no último dia do ano de 2015.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Federal

Todos os dias, sem muito pensar, ele embarcava no ônibus da linha metropolitana que atendia as quatro cidades grudadas na capital – e sentava no mesmo lugar. Escolhido, nesses todos dias, por um único critério e ponto de vista. Afinal, era preciso invariavelmente ficar no ponto estratégico daquele coletivo. O único lugar, aliás, em que sabido ele poderia observar todo o movimento. E toda ação. Dele, o cobrador. Que ao longo do trajeto de hora e meia – paradoxo – era a única pessoa que não tinha lugar certo nem definido. Nos intermunicipais daquela época o trocador cobrava a passagem de pé. Circulava pelo corredor. Pastinha presa debaixo do braço, ali as notas, ali os bilhetes. As passagens eram cobradas a partir do fundo do carro, da condução, pelo longo caminho, tortuoso, espaço apertado por entre o bate-e-encosta junto aos passageiros (repito, de todos que restavam de pé). Os coletivos viviam lotados. Cobrava do fundo para a frente do ônibus, num vai e vem que se consumia pela tentativa de fazer duas coisas ao mesmo tempo: cobrar a passagem e avançar com o veículo em movimento. Balanço. Calor demasiado humano. Inclinação. Frenagem. Novo malabarismo. Cheiro de óleo, de freio, suor, alguma incompreensão. E os solavancos do motorista lá na frente faziam das notas e das pequenas moedas objetos de alto risco monetário; media-se o bom cobrador pela habilidade de nunca deixar nada cair no chão. Nem os bilhetes! Principalmente os bilhetes. A magia dos tíquetes. Presos em talonário fixo à pastinha de braço. Objeto grudado ao seu corpo. De onde se retiravam as passagens. A diferença dos trajetos inscritos nas cores dos comprovantes cuja entrega deveria ser feito pelo passageiro na saída, para o motorista, fiscal, escambau; e essa diferença nas cores definia também os preços de acordo com a distância do trajeto pago, percorrido, ali, muitos de pé mesmo. E eram exatamente as cores dos bilhetes que mais fascinavam o passageiro daquela agonia: a de conferir cores e trajetos, escolhas e pagamentos, as mesmas pessoas, a mesma bilhetagem. Ele sempre escolhia uma cor diferente, um trajeto adverso, um local de descida ao longo da BR-116, a Federal. Até o dia em que trocaram o rapaz que cobrava, surgiu ela, mãos em riste, unha, batom, a primeira cobradora da empresa de ônibus, e no embaraço daquela viagem de contrariedade, aconteceu de ele pedir o ticket de uma cor e descer na outra, e na atrapalhação do pedido/descida, ele fez menção de desembarcar no ponto errado, o motorista não gostou, o fiscal viajava junto, e ele nunca mais pode entrar no ônibus da linha Federal.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Trilogia do Enfado - III

O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS - III  (ESTANTES)

 No percorrer desta ampla hora em que discorreu sobre as vantagens de seu produto, ele tinha os olhos cegos na paisagem desenhada à sua frente.
Ele, o vendedor de enciclopédias.
Eram livros também o que ele tinha diante de si, justo que como um vício ele ficou feito estátua a olhar aquela estante enfileirada de poeira e livros (os livros, ele sabem, não são lidos naquela casa). E pensando na disposição das coisas naquela estante, ele agora se dá conta de que ela está diferente, que ela não o reconheceu na chegada, e diferente de outras vezes (o único ponto de contato com sua memória) ela está realmente muito bem arrumada.
Ainda espera um instante (tempo), desvia os olhos (insistência), e como se estivesse a observar pela décima quinta vez a velha e conhecida estante (repetição), ele faz a pergunta, e sempre surge aquela pergunta:
– Vai ser hoje?
Sente como um impacto, soco no estômago, o longo tempo de reação dela (já foi mais atilada), e realmente estranha esse proceder lento na manhã de hoje, mas é só então que percebe o frasco vazio em suas mãos, aquelas letras médicas, a decisão antes anunciada, a cada visita, essa necessidade que ele sente de simular a compra e a venda quando já sabe de antemão que os sentimentos delas não se medem por metro quadrado como estantes na sala de uma casa de periferia – não ele estava em busca da derradeira confirmação.
O enfado e a indiferença de enxergá-la na zona gris localizada logo ali, perto do fim: então ela deita a cabeça, ainda consegue dizer baixinho Me deixa, avança no sono, profundo, definitivo, talvez o seu último sono, e assim pensando-sentindo-danando ele se levanta e decidido a desistir definitivamente daquela velha empreitada barraca, fecha a porta, avança pelo silêncio partido das folhas do pátio, ainda pensa mais uma vez no ridículo daquelas estantes.

A vida morta de um vendedor de enciclopédias.

sábado, 17 de outubro de 2015

Trilogia do Enfado - II

O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS - II  (SALA DE ESPERA)

Sentado diante das paredes lisas desta sala de espera na casa-e-conjugado de bairro distante em que agora se encontra, ele espera.
Ele, o vendedor de enciclopédias.
Representa muito esse tempo em que estacionado no macio gasto deste sofá. Representa horas, dias, esse infinito entre o pedido de um copo d’água e agora esta morrinha, esta espera.
Única distração: olhar as mãos, verificar os anos que passou entre calçadas de bairros de periferia de cidades deste Brasil, e agora ali: em terno surrado e gravata nada menos, vendendo coleções de conhecimentos que, sabe, mofarão em estantes de casas como esta:
Confins, bairro carioca.
Rua das Traças, número 150.
O destino de alguém que veio de tão longe, agora, isto: mero vendedor de livros por metro quadrado, essas coleções volumosas de maciço conhecimento, hoje em dia um objeto quase descartável, sim, ele sabe que já não é mais um homem “de hoje em dia”.
A consciência disso. O compasso desta espera. Então ela retorna, lenta, com o copo d’água entre as mãos, e a sede é tanta que nem repara que ela trocou de roupa, penteou os cabelos e que nada tem do cheiro das cozinhas dessas casas às onze da manhã, mas sim o tremor de terra pulsante dos solteiros e solitários que, exatamente como ele, vendem por palavras um mundo feito de sonhos.
É assim, falando de sonhos, de tudo que se pode encontrar adquirindo nossos produtos, que ele inicia a conversa programada sobre a coleção que está vendendo, enquanto os olhos delas são duas forças motrizes em sua direção, a receber, quem sabe, uma resposta sincera deste homem surrado que já percorrer tanto na vida – e agora isto:
Apenas a próxima venda.
O convencimento.
A boa fala, a impostação de voz e a coluna ereta.
E então ele desanda a falar sobre a importância de dispor das excelentes encadernações, da quantidade de saber ali depositado, a beleza desses volumes em sua estante, o conhecimento que a senhora pode adquirir para seus filhos não tenho ou para o seu marido viajando e então ele lembra do tanto que já percorreu, chão-batido-poeira-este-país, casas de periferia, a mesma fala, o mesmo cheiro, o mesmo enfado.

A vida seca de um vendedor de enciclopédias.

domingo, 30 de agosto de 2015

Trilogia do enfado - I

O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS - I  (O PORTÃO)



Esta rua, a rua em que agora se encontra parado, sempre lhe deu sono. Quem sabe pela longa extensão de muros, roseiras secas e cercas baixas, repetição do casario, bairro carioca, esse jeito que o povo daqui tem em recebê-lo.
Ele, o vendedor de enciclopédias.
Parado diante do portão, ele pensa. Pensa no embuchado dos dias, no aborrecimento destas portas em que toda semana, num circuito perfeito e matematicamente calculado, ele retorna.
Rua das Traças.
            Que nome este que alguém poderia dar a um lugar tão narcótico, agastado pelas horas, silencioso, em que os únicos sons a concorrer com o pisar de seus gastos sapatos são, lá do outro lado da rua, o latido do cão e a chegada do carteiro.
Ele, contudo, tem outra missão: vender enciclopédias. E, no entanto, já faz dez minutos que estará parado em frente ao número 150 da Rua das Traças. Só agora bate palmas, chama, lembra o nome, sabe quem vai encontrar, e é quando a Senhora Maria Teresa Ferreira dos Santos Azevedo abre a porta da casa que ele tem a certeza de que agora, sim, poderá fartar-se de abusar da paciência de sua melhor cliente.
Já vendeu de tudo para ela; hoje são enciclopédias que ele traz na grande maleta roxa que carrega presa à mão junto ao corpo em terno e gravata.
Ela se aproxima, chega na qualidade média de uma temperatura morna, indigesta em trajes tais – pijama, camisola, seja-lá-o-que-for na cabeça – e sonolenta (mesmo que sejam dez da manhã) pergunta:
– Posso ajudar?
A boca seca, seco de ideias, rodízio, fastio, ele apenas pede para entrar, quer mostrar a sua melhor mercadoria, a senhora tem uma água enquanto segue nessas estopadas que todo vendedor de enciclopédia tem que saber usar para vencer na vida e sobreviver no negócio.
O portão range – o primeiro passo tem a semelhança de uma morrinha em quatro capítulos – e este será o tom da conversa do vendedor de enciclopédia na próxima uma hora e meia.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O espelho do bar da esquina

 Há dois grandes espelhos na barbearia em que hoje à tarde me contaram esta história. Agora conto – e se conto é porque ouvi – e não porque houve.
Nem vi.
O que vi foram espelhos – e o sujeito. Eram dois, os espelhos. Refletidos eram seis, sete, talvez oito ou uma infinidades de reflexos. E neles, os atendentes, também chamados barbeiros. José, Pedro, Luciano, Seu Armando e uma garota chama Luana. Os nomes eu por vezes gravo, noutras esqueço (a maioria), mas hoje à tarde era-me impossível esquecer de certas coisas que eles me contaram.
Que ouvi.
A história daquele ramalhete de flores, vistoso, que vi já na entrada da barbearia; estava ali como um aviso, como um símbolo de amor de alguém que estava sendo amado naquele recinto. Era Luana. Ela sabia. Todos sabiam. Estava no sorriso de um outro atendente; no sarcasmo do líder, do principal, talvez o dono ou gerente, e era ele que me contava a seguinte história:
Que hoje pela manhã, ainda cedo-cedinho, Luana atendera um cliente e por um caso, bem por acaso, a garota resolveu elogiar os olhos do sujeito que ela cortava o cabelo. Foi o que bastou, segundo o relato que agora reconto, para que horas depois, ao início da tarde ele retornasse com o arranjo de flores, declarasse o seu amor, e agora estava ali, no canto, mas na entrada, como troféu ou exibição, aquele ramalhete estonteante de flores. E se digo estonteante é porque eram assim os passos de Luana dentro do estabelecimento, a toda hora olhando para a rua, pela grande porta de vidro. Da mesma forma que todos, ali, acompanhavam seus passos, sua angústia, o erro, reconhecido por ela, contado por eles, de que era uma mulher comprometida e agora aquele sujeito lá parado, sentado no bar da esquina, feito fera, espiando pelo canto do olho, e, sim, esperando Luana largar do trabalho.

Luana está visivelmente angustiada; talvez apavorada, tensa.

Nem um pouco menos do que eu, a pensar, que quando sair desta barbearia, onde me encontro, onde nenhuma história me foi contada, onde eu ouvi o que quis ouvir, e olhei do jeito que quis olhar, com olhos de desejo com que olhei para Luana, eu agora também estou tenso, mas não apavorado, apenas aguardando o momento de sair daqui encarar de frente aquele sujeito que nos olha do espelho do bar da esquina.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O cirurgião

 Tamanha era a potência e o ronco do motor do carro que estacionara na frente deste pequeno mercado de bairro, que eu nem reparei no pedido Uma água mineral, por gentileza feito pelo homem de boa aparência que, perdido, encostara por ali.
Era o cirurgião.
Ainda hoje lembro o erro e também o quanto eu deveria ter prestado mais atenção nas palavras daquele homem de voz mansa, de gestos lentos e de cheiro agradável; foi minha esposa quem o atendeu.
A mesma esposa que semanas depois ele carregou embora com a promessa de cirurgias e demais melhorias.
Nunca mais ela voltou.
Até ontem.
Sim, porque agora os dois estão de volta ao lar; estão aqui neste mesmo mercadinho pé-sujo, como ela mesmo tachou o meu negócio no dia em que foi embora, atrás que ela foi das promessas do cirurgião plástico. Estão bem enrolados os dois, juntinhos, acondicionados em partes iguais, simétricas, fatiados que estão dentro de sacos plásticos de supermercado – que ironia – lá embaixo, trancados sob grosso cadeado, mergulhados no gelo eterno do congelador do depósito de mercadorias.
São belos e perfeitos aqueles cortes.

Coisa de cirurgião.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Coragem

 Tão cedo e ainda noite dentro de mim.
Raymond Carver como fragmentos na minha cabeça. Monotonia. Caminhada a passos calculados. Pelas calçadas do Bairro Tristeza. A inutilidade das sacolas de supermercado suspensas pela mão como tentativa de dar algum sentido... Interrompido pensamento, num zás, pelo impacto fulminante. Dois carros à minha frente. Cruzamento. Pancada seca. O giro (do carro). O grito (do menino).
Correr ou ficar?
Recuo um passo, depois avanço dois.
Assim:

Hoje de manhã. Tal o acidente. Uma grande caminhonete avança em alta velocidade, cruza no sinal de PARE e colide na lateral de um pequeno ponto zero. Que roda. Isso tudo ali, no limiar da calçada à minha frente. Milésimos de segundo entre o choque, o carro girando em sentido horário e a minha reação. Que é absurdamente calma e instintiva, isso logo após ouvir o grito que se seguiu à batida. No carro atingido, certeza, há uma criança pequena que chora. O avô saiu, antes, nada nas mãos (vazias), a coçar insistentemente o pescoço, nem lembra do neto chorando lá dentro. Só do choque, pancada, pescoço. Fico na dúvida se reparo na preocupação dele com a coluna, ou se corro a acudir o ser indefeso. Que, estranho, quando lhe ofereço, aceita o meu colo – mas ele chora o pavor. E de repente a manhã é noite, e de noite passa ao brilho dos metais dos dois carros jogados na via de rolamento que olho por sobre o ombro da criança. E, súbito, já não é mais noite dentro de mim. Do outro carro, da grande van, sai uma mulher de uma certa idade indefinida, telefone móvel preso à mão, ela está linda na maquilagem perfeita, mas está triste. Ao mesmo tempo, reparo em seus braços. Dois tubos cheios de tatuagens soltos no ar. A pele, assim que consigo chegar perto e perguntar Tudo bem?, a pele tem o castigo dos bronzeamentos artificiais. Representa ter uns cinquenta anos dentro de trinta e cinco. Mas ela sai do carro arrasada, passo curto, trôpego, este lado, o outro, porque a culpa, sim, a culpa do óleo derramado na pista é dela. Ainda percebo que ela nos vê, ao velho, à criança, a mim, e ao mesmo tempo que olha, gira o corpo sobre os sapatos baixos (como reparar nesse movimento de balé a uma hora dessas) e depois de rodar, senta-se no meio-fio da calçada.

Assim:
Embalo a criança, único consolo.
A esta estranha fortaleza contida na minha ação, em cuja coragem encontro isto:
Noite.
Grito.
Por dentro estou a explodir com aquilo que o médico disse.
“Não parece bom.”
Eu vinha pensando, sacolas penduras à mão, na calosidade das calçadas, quando:

Coragem.

terça-feira, 31 de março de 2015

No gabinete do sono

São onze horas da noite.
Sentado à mesa central deste gabinete, formulo: até aqui fomos tão longe.
Excessiva e agora chegando ao seu derradeiro fim – milhas de distância percorridas –, a noite me escurece.
E mesmo sem saber o que vivemos juntos, exato dizer, sem saber até que isso, o algo mais simples seja dito: aqui estamos, aqui chegamos.
Muito caminhamos sozinhos, sem a ajula Dele – seja ele quem for – e em verdade vos digo: que para acreditar basta estar vivo.
Tampouco acredite que com dúvidas conseguirá algo.
Eis todos os clichês que me ocorreram às onze da noite.

Talvez por isso há que se registrar a minúcia desses inúteis movimentos que me cercavam então – e se tenho nesta pequena caderneta de bolso o meu alívio imediato, o certo é que o meu último gesto deverá ser mesmo este: abrir a gaveta da cômoda, retirando dali a pequena arma. Retiro. É um livro.
Livro do desassossego.
Em cujas páginas, percorrendo as margens do texto, ali, como pequenas glosas, encontro anotações, a letra dela, o nome dela; ao lado, uma pequena lista em iniciais tais:
A.P.C.
L.M.N
J.P.T.S.
M.L.
E.H.S.A.
As iniciais das tardes em que acordado intelectualmente no silêncio deste gabinete de leituras, eu escutava seus passos pelo quarto do casal, a arrumar-se; depois seu caminhar pelo chão de madeira de nossa residência, em seguida a me dar beijo na testa-tchau; horas depois, seu retorno sempre desprovido de explicações, com nosso jantar debaixo do braço, aquela mesa silenciosa a dois, eu avisando, vou escrever até mais tarde, subo, tudo bem?
Estarei meus dias no gabinete do sono.
Enquanto ela sempre na rua. Passeios. Liberdade em tarde de ar rarefeito. Primavera. No livro, aquelas siglas, muitas, outras pessoas, enquanto lá no gabinete eu a acreditar em teses e doutoramentos, lia vastos tratados e outros tantos manuais, na gaveta o desassossego, enquanto isso ela...
Ela era ela.

Agora essas iniciais a demonstrar a existência retilínea daqueles nomes, homens, brancos.
Que importa a cor se a noite é escura lá fora?
E que dia horroroso para saber ler.
Retiro a arma.

Gun.