sexta-feira, 9 de março de 2012

Não alimente o hipopótamo

A placa dizia:
– Não alimente o hipopótamo.
Eu estava no centro histórico de tudo: o da minha organização. Aguardando a chegada de um conhecido, dali observava os cidadãos que entravam no prédio em busca de justiça. Também reparei no aviso que, dias atrás, haviam colocado para alertar os desavisados visitantes, os loucos de todo o gênero que subiam os lances de escada que  nos separarem do resto do mundo – a população – nós, os animais enjaulados nesta repartição de pecados – proibidos que estávamos de alimentar o hipopótamo.
Observei um cidadão brasileiro subindo.
Minutos depois, descendo: é difícil conseguir algo da via pública.
Sem perceber que no sentido contrário dele chegava O Redentor, o cidadão em busca do seu direito sorri para a autoridade que avançava os degraus.
O alimento.
O equívoco.
Pronto: ele estava alimentado – preparado para sentar no cocho de sua sala refrigerada e assinar dúzia de papéis de valor duvidoso – do ponto de vista ético – mas era sabido dos que cuidam o zoológico humano que depois de alimentado com a simpatia cidadã ele certamente iria azucrinar com a vida de alguém, andares abaixo, outros tantos, acima. Na verdade não importa a direção.
O que importa é não alimentar o hipopótamo.
Ninguém o suporta nas reuniões da tarde.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Converse com as plantas

E tenha um dia feliz. Dizia o anúncio. Queria ler, queria ter mais paciência para esses pequenos atos da vida cotidiana, mas eu era um sujeito sem tempo para embelezamentos e alguém resolveu outro dia dizer (visitando o recinto ascético que habito) que eu tinha de ter uma planta em casa, este apartamento é muito frio. Por isso apanhei o vegetal na loja dos vegetais, verifiquei o preço, abracei o pacote, a carteira eu abri, paguei sem sorrisos, feliz por dentro com a antipatia bélica da pessoa do balcão... Sim, agora eu tinha uma planta em casa, era o que importava. Estava saindo quando alguém tocou no meu braço:
 – Converse com a planta.
Lembrei do anúncio (estava lá na entrada da floricultura), alguém sorrindo e acariciando uma planta e dizendo:
– E tenha um dia feliz.
Difícil acreditar na acusação de falta de vida do meu apartamento, logo ela, a garota que estava mais atrás de diversão barata do que planos eternos; mas eu a ouvi, fui até a loja e comprei uma sempre viva (pra que nome melhor?), ouvi acreditando que ela era eterna, mas alguém disse as flores de plástico não morrem e agora eu era uma homem barbado com uma planta no colo. E o sujeito, repetitivo:
– Não esqueça de conversar com a planta.
A minha pressa. Certa indiferença. Falta de tempo. Impaciência. Toneladas de grosseria e incompreensão (...mas nem conversar com as plantas você consegue conversar, ela bateu a porta e saiu). Na minha pressa, na falta de tato, não ouvi direito o choramingo do sujeito parado ao lado da porta, lembrei, antes, os crescentes meses de seu afastamento até o dia em que ela tchau, cansei estou indo embora...
E foi.
A planta no meu colo.
O sujeito repetindo.
Eu silêncio.
Definitivamente, agora eu sei: preciso conversar com as plantas para descobrir onde errei.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Disque Sandra

E tenha um dia feliz.
Era o anúncio.
O meu dia - o resto dos meus dias.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Pedro em chamas

Durante cinco anos ele foi Pedro.
Pedro entre pedras.
Os rochedos, seus colegas (estranha capacidade de abstrair os eventos ao seu redor).
Pedro,
Nem Páramo
Nem qualquer planalto revolucionário (Que viva Mexico!),
Mas vivendo entre chamas.
Proclamas
Reclamações de todos os lados, fatiotas puídas, defuntos vivos do serviço público:
Ambulantes a lhe pedirem atenção (mas exatamente que tipo pungente de atenção?).
Os ambulantes de Deus
Durante certo tempo, sim, uma estranha categoria de realidade Pedro ele foi .
O chefe envolvido em poesia e alucinação.
Amigos, referências, corrente, fumaça
Póstuma, enfim
Inscritas, quero crer que foram, sim
Rochas, chamamento, choro, lápide
O fim.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ontem à noite

Para F.

Quando ela enfim me disse tudo que pensava sobre a minha pessoa e a mim classificou como um ser de comportamento semelhante a algum partido de centro-direita (como se inclinação de algo para um lado já não fosse o próprio lado...) eu percebi que era o início do fim.

Da noite.

Dos riscos epiléticos daquela mesa de bar.

(Eu rodando nas escarpas do território familiar cuja prima as primeiras lembranças agora me trazem eu pensei e pensei e...)

...então aí pelas onze e não sei tanto da noite de ontem eu decidi que o único caminho era a fuga; e se preciso fosse eu percorreria num jato os poucos lances de escada daquele chalé, remaria calçada adiante, para ao fim e ao meu cabo embarcar no sufoco da conversação de mais um taxista reacionário.

Eles sempre são e estão ali, a esperar.

O taxista, os riscos.

(O mesmo risco diante de mim, na mesa, paineira no ar, em algum mergulho em que eu me encontrava diante de cujo centenário o seu contorno me encantava, e eu a pensar nos tortuosos caminhos da conversa do homem do táxi...)

E enquanto eu descia as escadas do meu destino interrompido, tropeçando nos ladrilhos do calçamento em falso como passista no fim daquele baile verde, me foi impossível não perceber ao lado os ventos da época, o encanto da primavera viva do pêssego maduro, vendido, ali, em feira noturna.

Os pêssegos me levaram para casa; comprei, e sacola em mãos foi aí que embarquei no táxi iniciando a conversa sem nem mesmo deixar o rapaz da direção iniciar suas loas ao passageiro noturno.

(Eu sempre quis aprender a ouvir.)

Mas não foi ontem.

Ontem eu levei pêssegos para casa.

domingo, 6 de novembro de 2011

A história da minha vida (ou carambolas)

Meu filho trouxe um tema para casa. Nele os pais deveriam escrever dois textos sobre como iniciariam a contar a história de suas vidas. De imediato, a minha primeira reação foi um princípio de pânico. Como iniciar uma coisa dessas? Era o pai contando ao filho – e tinha que ser bom. Na pequena confusão mental que se seguiu, abri espaço entre os anos, furei décadas, costurei eventos e abanei para pessoas, e ao fim desse zapping vertiginoso tive o ímpeto de começar uma delas assim:
Me pediram uma história, a minha; vou contar, afinal, não há de ser difícil contar um começo. Mas onde exatamente começa a história da minha vida? O primeiro movimento sobre duas rodas, quando aprendi a andar de bicicleta? A primeira viagem com meu pai, de caminhão? Um natal em 1974? Aquela professora da 4ª série que gostava muito de mim e força me deu? Realmente uma vida começa em muitos (e bonitos) momentos. Hoje escolhi carambolas – e aquele primeiro dia em que subi sozinho em uma árvore. Isso aconteceu na pré-escola, lá em Canoas...
Era o início.
O tema estava feito, a obrigação cumprida, e então fiquei a imaginar a continuação de tal história – a minha. Difícil crer que contá-la seja mais fácil do que jogar os primeiros dados – e o único dado real que eu tinha eram as carambolas da minha primeira infância.
Por que carambolas?
Novamente, difícil explicar. Ao contrário dos freudianos, os escritores não estão muito preocupados com as explicações dos primeiros anos... Quer dizer, só os cronistas – e então me lembro que isto é uma crônica e eu estou aqui com a mão cheia de carambolas.
Ou no pátio da pré-escola, arranhado depois de pular da árvore das carambolas, olhando para todos os lados a fim de saber se nenhum irmão lassalista me viu em pleno delito.
Era isso: as carambolas simbolizam as primeiras transgressões.
Mas era só isto: um tema a ser feito.
Ou carambolas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Deixar como está

Duas, três taças de vinho... meu refúgio: a realidade do dia-a-dia. A necessária visão da mulher forte que tudo me impede de desabar. Imagens, sons, pensamentos que não congruem; um raciocínio que não chega a ser completo pelo medo do resultado. Obrigar-me a tomar a outra decisão. Melhor deixar. Deixar como está.
Toco na taça, ela cai, quebra-se no chão dessas lembranças.
O vermelho, rio, tapete, amanhã lembrança, acordar tarde, dormir cedo, noite, depois dia, a minha cabeça é um balão e se dissipa no ar.
Melhor deixar como está.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Parafraseando...

... um conto do Raduan Nassar, foi que “aí pelas três da tarde”, despojado de tudo que poderia haver em mim, abandonando a importância das coisas materiais que me cercam nesse recinto-momento, e colocando um olhar doce e cândido sobre a tela, outro lúcido e alerta aos meus colegas, sempre cuidando para que o desalinho da cadeira e dos meus cabelos não revelem a intensa profundidade do brilho por ventura contido nos meus olhos, a sensação de êxtase que me preencherá por quem sabe longos horas, longos dias, luas, e logo após um diálogo plano, franco e curto replicado em alguma espaço ou rede social, e depois de estar um tanto quanto realizado por ter conseguindo ser exatamente o sujeito simples que eu sempre quis, posso e quero ser – e que você, Maria Alice, está me ajudando a descobrir – sendo, portanto, apenas eu, no sentido mais querido desse egocentrismo transbordante que se pode gerar para outra pessoa, bem dito, em você, logo, o melhor de mim, foi então que eu grudei os dedos no teclado, imaginei um céu e uma janela na parede cinza à minha frente e, flutuando nesta sala cheia de responsabilidades, contratos e abstrações legais, foi que formulei, para ti, o seguinte:
Te gosto.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Toc em frente

Para San
 
Como num cenário colorido de Lost in translation, eles se encontraram na mesa de um bar de hotel, em Tóquio, mas poderia ser em qualquer outro lugar do mundo, tal a quantidade de milhas entre os dois. Ele mostrando o bilhete de passagem:
– São incríveis as combinações que podemos fazer com os códigos e números desses bilhetes de passagem.
Ela a imaginar o sentido daquela conversa, duas horas depois de ele a ter abordado e sugerido que tomassem um drinque juntos. Foram vários... Agora aquela conversa:
– Adoro listas, números, combinações de número e letras...  Faço lista de tudo que tenho em casa, do que tenho que comprar, dos filmes que vi, das cidades para as quais viajei nos últimos doze meses...
Duas da manhã, ela se aproximando do sono, o fuso horário a castigar a sua beleza,  roubada aqui e ali pelas palavras monótonas dele – e ele não parava de falar em números, listas e combinações e tantas outras tolices... Ela foi seca:
– Isso é TOC.
– Sim, isto, eu toco em frente, estou sempre fazendo novas listas...
Ninguém conseguia, e talvez por não conseguir mais escutá-lo que ela afastou o copo, se levantou e foi embora.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Esses comprimidos não mentem

Porta central do consultório. Cabelos em desalinho, papel preso à mão – e os braços soltos na soltura de um alívio maior – ela sai e mergulha na claridade ofuscante que não era. Chovia, e ela precisava encontrar a farmácia.
Sempre existe uma.
Sai da loja com a certeza (agora ela tinha). Faltava apenas o último desejo: o salão de beleza. Que avistou, do outro lado, e para o outro lado atravessou, entrando feito soberana; sentando-se e exigindo tratamento de rainha; pedindo serviço completo só dispensado à alta realeza. Todos estranharam “a moça de hábitos simples”.


Duas horas depois, vieram acordá-la na cadeira mais afastada do salão. Estava fria. O animal indefeso tinha as mãos unidas, geladas, o retrato severo de uma natureza morta. A moça do centro de beleza que a encontrou soltou um grito, as colegas acudiram, todos rodearam a pequena dama, ali deitada, cujo nome – sobrenome depois descobriram – era Teresa de Souza e Silva Albuquerque, ou Teresa, ou simplesmente Tetê, uma cliente qualquer, em seguida elevada à condição de única herdeira do poderoso grupo Souza, Silva & Albuquerque, riqueza muita, espalhada pelo mundo.
As mãos estavam unidas. Preso, o corpo tinha o estado do sono eterno. No rosto, um fragmento de sorriso liso, única concessão feita ao dia, frio em emoções contida na difusão de uma prescrição médica repassada pela mecânica de um consultório também frio. Como se a garota ali sentada descobrisse a grande verdade, o prêmio máximo, o azul celeste de um céu brilhante, os passeios que nunca deu com a mãe, o sono tranquilo ao lado do pai, saudades muitas, e agora a revelação de um mundo colorido, calmo, pacífico, do outro lado do mundo, era só atravessar a rua, porque esses comprimidos não mentem.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Santa Cruz, Cuba

Elevador. O sujeito entra com as páginas sujas da Cuba de El Rey, o protagonista, em mãos – e nada diz. Em segundos, o aparelho desce. A ascensorista nunca pergunta na descida; apenas sorri. E sorrindo os dois mergulham do 31º andar em direção às letras latinas do fundo do poço. Ele sorri na malícia das páginas que pouco atrás alimentavam sua libido.
Sempre no mesmo sorriso, a ascensorista do Edifício Santa Cruz diz que gosta de ler e mostra a ele uma pequena sacola escondida ao seu lado, no canto do aparelho. São livros entre outros embrulhos. Forçado pelo convite, o homem tira os olhos do Molecón de Havana, gira em 180 graus, respira fundo e diz:
– De ler, você gosta?
– Tenho sempre estes aqui comigo.
Mostra. Os livros estão amarfanhados. Pacotes de bolacha disputam espaço com um par de sapatos, um vaso de perfume e um rádio transmissor. Está quente no elevador, e os andares, sempre vencidos com decisão pela linha reta daquela alforria que lhe representa o espaço 4x4, agora lhe parecem eternos aqueles instantes.
Ainda grudado no livro, ele relembra mentalmente a última conversa de Reynaldo com Magdalena, das ruas, do cheiro, da sujeira, dos cortes tresloucados e a pergunta:
– Gosta de Cuba?
– Nunca saí daqui.
Por um tempo ele fica imaginando os caminhos que o levaram até a ilha, as ruelas empoeiradas, os prédios em ruínas misturado ao colorido dos carros, a cor café das mulatas em cada esquina...
Mas a ascensorista é diferente, ela é loira, tem a cor branca de um branco antigo, de falta de sol, de terra, de rua e de rum.
Ela ri.
Ele a pensar que talvez aquela mulher, completa em suas idades pretéritas, nunca tenha saído daquele cubículo, deste prédio, da cidade, estado, nação. E enquanto pensa isso vai lembrando dos pequenos quartos cubanos que frequentou, e agora... eles são linhas em suas mãos, no escárnio de um Rey de la Habana. Mesmo seu terno, a gravata e a pose alinhada são pouco diante da força dessa pequena novela cubana. A sua. E então os seus olhos apertados de bacharel preso à leitura de obscenidade se contorcem em direção aos olhos macios dessa mulher, e nesta partícula de tempo em que a porta ainda não se oferece, ele é definitivo e sustenta:
– Gostaria de ir?
Térreo. O solavanco da busca parada fez ambos balançarem dentro do elevador, e nesse choque de confusão ela acredita ter entendido que o distinto senhor lhe perguntou se “gostaria de ler”.
“Sim” foi a resposta.
“Até logo” foi o que ele disse.
O mesmo sim e o mesmo até logo que agora na rua alimenta os seus sonhos de voltar a Cuba, de um dia ainda retornar àquelas pensões toscas, de escrutínios e cheiros incomuns, de uma Havana colorida e cheia de sorrisos, quem sabe então retornar acompanhado de uma ascensorista que talvez nem conheça o mar.

domingo, 14 de agosto de 2011

A herança do pai

Em alguma rádio do circuito das ondas médias – o seu aparelho era mesmo antigo, uma relíquia, herança do velho pai – lembra que foi ali que escutou. Mas não é apenas o rádio que ainda vive mergulhado nessas ondas tão antigas. Suas lembranças também.

Na hora, acreditou em presságio. Algum aviso enviado pelos céus. Passagem de vozes vindas do além. Ou seria a visita por tanto tempo esperada? Enquanto ele se perguntava aonde mesmo andaria seu velho pai? Em noite passada, quase vai acreditando ter escutado ele rondar por ali, a bater com o nó dos dedos na janela da frente, na esperança de encontrar, como naquela novela mexicana, seus parentes vivos num vilarejo empobrecido do interior do país. Mas aquele lugar não era nenhuma vila – era sua casa – e seu pai, seu velho pai estava bem morto – foi ele mesmo quem enterrou – de modo que não podia ser o pai.

Na campanha do rádio, estavam anunciando um concurso para os ouvintes enviarem mensagens com as coisas que aprenderam com seus pais. Escutou tudo bastante atento, ouvido colado no rádio, um chiado no fundo, tentando lembrar os grandes ensinamentos de seu velho pai... Mas o que foi mesmo que aprendeu com o velho? Havia outro chiado, e este era bastante antigo.
E enquanto ele se esforçava em lembrar (o pai chegando em casa), nem percebeu que o filho pequeno (ou seria ele quando pequeno?) entrara esbaforido sala adentro, atrapalhando seus ouvidos, sua escuta, sua atenção (pai, pai...), a interromper a sessão vespertina de rádio, a hora das notícias do pai (do seu pai que gritava... gritava mas exigia silêncio), agora aquela promoção no rádio (como era mesmo?), talvez por isso que ele grite com o filho (seu velho pai gritando da porta “sai vagabundo!”), enxotou o garoto porta fora (ele saindo de casa para nunca mais voltar), o pequeno saindo para nunca mais voltar.

E o menino não foi visto mais naquela noite.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Roberto

Madrugada. Alguém agoniza. Ao redor, parentes. Poucos. E bem poucos ainda a acreditarem na mágica esfarrapada dos médicos.
Outra madrugada, e agora Roberto, o filho mais novo do moribundo, levanta e num gesto inesperado mais conivente apaga as luzes. Ficam as velas – e o olhar incrédulo de um ou outro que ainda estava acordado – e que acorda e agora dorme de novo. Sim, o resto dormitava, aprofundados numa espécie do sono da fuga. Esperavam, no insólito de uma noite mal dormida, a chegada do dia, da hora clara, do término, enterro, fim. Despachar aquele ali deitado para o lado de lá – a providência de olhar a cada instante o relógio.
Antes, ela chega. Viva, fria, a madrugada evola – e na dança incorpórea da hora madrasta dos moribundos, o tempo vai derrubando um a um. Só resta acordado o cão, sempre fiel, ao lado de quem tanto admirou e nunca o compreendeu. Sentado ao pé do morto ele olha através da fresta da janela um pedaço de lua lá fora.
E ele esteve ali a vida inteira – e a vida inteira lhe foi nada.
Este cão chamado Roberto.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Carga viva

Já carreguei de tudo no meu truck: vaca, porco, cavalo e outros seres inanimados. Aquele tipo de animal, nunca. Rugiam (leões?), uivavam (lobos?), fuçavam (seriam porcos?) na caçamba do caminhão. Agonia de bicho. Nunca gostei emprego. Carga viva. Escrito atrás. Palhaços que me ultrapassavam buzinando. Bichos se remexiam. Gostei pouco. Sempre trabalhei nisso. Sim, disseram, carga viva. Mas não estavam quando lá no Hospital Veterinário despejaram a carga (se os defensores dos animais me ouvem falando assim...) na carroceria do caminhão. Barulho ensurdecedor. Aquele monte amorfo fedorento barulhento a minha paciência naquele dia zero arranquei o bruto a caixa gemeu os bichos as coisas os coisa tudo aquilo berro ficaram berrando estrada afora barulho ensurdecer aí parei tinha que abrir a caçamba verificar olhar os bichos. Então no que rodei a trava de segurança eles pularam. Agora o chão. Vermelha poça ao meu redor. Arranhões pelo corpo, os dedos esmagados, a perna da calça arrancada, um naco de carne separado. Acordei. Tontura. Tudo cinza. Me puxaram. Largaram na carroceria. Barulhos na cabine. Rodaram a chave, deram a partida, primeira marcha, solavanco, segunda, em frente, terceira, pra onde? eu aqui: carga viva.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Prolegômenos

Outro dia eu encontrei o pai. Era um senhor vestido de sobretudo, chapéu de feltro e mãos nos bolsos. Cruzamos pelas alamedas daquele centro de compras, e eu tive a certeza de que com aquele frio só poderia ser o meu pai. Ele sempre foi muito frio comigo.
Antes de ontem o vi na rua. Era um tanto quanto escuro o beco em que ele se encontrava naquele momento, e eu tive dúvida se aquele era realmente o pai que eu sempre esperei ter. Sim, mas era.
Ontem vieram me dizer – e foi o meu irmão – que o pai seria internado em um hospital da cidade. Nunca gostei de encontrá-lo nesses lugares, mas quantas foram as vezes em que tivemos a oportunidade de escolher as formas de convívio? Receio que levarei de dois a três dias para visitá-lo. Eu sempre fui muito duro com o pai.
Agora a pouco atendi um telefonema e nada falei. Pra quê? Se já sei onde irei encontrá-lo, me digam, por que todos esses prolegômenos? Se nunca tivemos tanta intimidade, eu pergunto.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Crédito lunar

Quando ele perguntou:
– Você já leu o meu livro?

E ela respondeu também perguntando se ele estava falando do livro do George Orwel ou do Homem Perfeito, ele vibrou. Era uma espécie de vitória. Um benefício eterno.

Finalmente ela reconhecia que jamais havia concluído a leitura de seu único livro, a obra-prima O Homem Reduzido. Então agora ele descobria que passados dois anos do lançamento ela ainda não conseguira arrancar da página 10 – jamais avançara pela trilha da floresta de folhas de sua perplexidade – aquele livro. Ele vibrava, por um minuto, só um, foi muito rápido.

O crédito do homem perfeito agora seria lunar.

Ele.

O homem que chora essa pequena descoberta.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Alta costura

O-I

A vida inteira.... agora ela está bem. Vive o delírio de estar nas alturas. Agora falta pouco.
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Nos primeiros dias, trancadas no sótão; depois o resto da vida.
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A vida inteira Dona Esmeralda viveu na região serrana do estado. Pessoa respeitada. Referência religiosa. Costureira de bairro. Trabalho social na comunidade. Lá viveu, de lá nunca saiu; mas não foi por falta de vontade dos parentes, que tentaram levá-la para a capital, para a “cidade grande”. Desistiram no dia em que ela anunciou que se retiraria para o mundo a alta costura.
Ninguém entendeu a decisão. Ainda mais considerando-se a idade avançada. O consenso: era hora de parar, e não de continuar. Ninguém entendeu.
Então numa tarde qualquer e sem muito alarde ou barulho, Dona Esmeralda chamou os filhos e pediu que colocassem a máquina de costura no sótão. Olhares de alívio: ela se aposentaria. Só que ninguém conseguiu convencer a velha anciã de plano tão estapafúrdio: morar no sótão. Afinal, ela já vivia de forma confortável na ampla casa em que acolhia seus quatro filhos, as noras, os netos – e todos a se perguntarem: pra quê aquilo?
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Nos longos anos em que permaneceu estabelecida no sótão, sonhava com o sucesso na alta costura. Apartada dos demais, os de baixo (como ela os chamava agora) quase nem lembravam da velha Esmeralda, tal as discussões em torno da herança da falecida viva. Lá no alto, alheia a tudo, ela falava sozinha entre um intervalo e outro de corte e costura imaginária. Sempre concebendo lindos desenhos, tecidos trabalhados em suaves cortes, os olhares de admiração, os casamentos preparados, a noite de gala, a consagração nas notas de apreço nos jornais do dia seguinte... Dona Esmeralda gozou uma vida de sucesso – e tudo aconteceu num tempo muito depois de sua mudança para o sótão. Para as alturas. O eterno delírio, esquecida e incompreendida pelos fascínoras que se alimentavam das bordas de sua herança em vida.
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De lá não saiu (já sabemos), mas nada impediu que de lá comandasse os seus atos finais.
Aquele desejo: escrever o próprio obituário.
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Longos anos de espera e os parentes nada obtiveram de Dona Esmeralda. Só quando abriram as portas do sótão, dias depois do ocorrido, é que perceberam o papel preso à mão. Nele escrito:
“A vida inteira....”

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Mais e menos

(É uma mesa redonda.)
Nela, olhares muitos circulam de um lado para o outro. Não há barulhos, conversas ou demais tonalidades. Há, sim, vacilos, há pessoas que fogem com seus olhares e há até mesmo senso de humor; outros que escolhem o momento certo para espiarem ocasionalmente a curiosidade alheia. É um jogo – e ele está no centro do encantamento. É mais ou menos como um zero a zero no qual cada um cuida do outro sem que haja alguém que sustente por mais de dois segundos esse olhar. Não há desempate, desenganos. Nem certeza ou desencanto.
(As cadeiras traduzem simetria e formalidade.)
Ninguém move músculos, poucos são os eventos.
Agora mesmo, alguém do outro lado levantou os olhos: inspecionava. Como gado, como flor, como porta. Desviou, fugiu pelo rabo de um olho; um terceiro adiante entra no jogo, mas escapa, e tudo parece uma fuga sem-fim. Nesses encontros ocasionais em que parcelas de compromisso juntam pessoas com algo em comum, foge-se do quê?
(– Boa tarde.)
Outro foge das duas lanças redondas que apontavam para ele. Dragavam os sentidos ao sustentarem o olhar de macieira. Agora se vira para o infinito do colega ao lado. Vazio, fastio que tem efeito ainda pior: fica-se sem a fala. Numa mesa feita de circularidade e sentidos, alguém enfim consegue assentar:
– Mais e menos.
E dali ninguém saiu (ou entendeu). Embate de instâncias neutras. Fifty-fitty. Um jogo circular. Um neutro artesanato de vida. A realidade de um outro mundo – o desconhecido.
(Alguém ao seu lado assopra.)
Mas quem? Durante longas horas, o trabalho em giro cinza e frenético: um olha, o outro desabona. Então ele é alguém intrigado com o eterno movimento pendular dos que estavam à mesa. Só ele? E o que seriam aqueles desvãos? Paixão embutida? Restos humanos na cadência de um acidente geográfico de olhares que buscam os ínvios caminhos e só encontram...
(Impossível saber.)
Ninguém sabe – e a pulsação ainda continua um nível a mais, um nível a menos. Um lá, outro acolá. Dois mundos: gente diferente em grandes distâncias.
Entre os presentes, entre os ausentes: esses fantasmas sentados ao seu lado.

(O primeiro integrante da mesa, enfim, chegou; a reunião vai começar.)

terça-feira, 29 de março de 2011

Quando o lápis no papel

Ponto ou dois pontos? Vírgula ou virgulo? Exclamo ou exclamação? Nossa! Que português-porção.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Perturbação

O homem no seu limite. A franqueza extrema de admitir o próprio esgotamento. Como alguém que alcança a própria corda, a sua. Esta que alguém colocaria algum dia em seu pescoço. O olhar no limite. O escapamento. A velha sensação de estar faltando palavra melhor para definir o seu desespero. Ele, logo ele, o escritor consagrado que um dia a colocou em destaque num título de seus livros. Perturbação. A palavra poderia ser outra, poderia ser vida. Outra vida, outra fuga. Assim pensa. E dilui. Esvai. Corrida sem fim, linha de chegada ao ponto máximo: aqui chegamos para nada.
Eis o homem. E do homem o fundo (e no fundo não havia nada).
Em vão, ele nada contra a correnteza de seus atos, palavras, deturpações.
Inquieta-se. Levante. Ele está em busca.
Ele sabe.
Sabe apenas daquela inquietação de não conseguir encontrar o controle remoto, perdido como está, enfiado no meio de almofadas e restos de comida e de pensamentos que vão embora quando ele dá o clique.