quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os Ratos no avião

CRÔNICA

Encontro-me no voo para Brasília, Capital Federal do Brasil. Suntuoso escrever isso quando a importância da viagem resume-se a mais um curso profissional, treinamento, o nome que queiram dar – ao final tudo são relações humanas, contatos, acertos, conversas e novos entendimentos que se formam entre as equipes – e o nome disso é trabalho. Ao meu redor os passageiros em seus ternos e smartphones me parecem um pouco como ratos que vão para o Planalto Central do Brasil em busca de dinheiro. Lembram Os ratos de Dyonélio Machado, o livro de 1934 que leio na escuridão desse tubo de potência, e enquanto não apagam as luzes sigo a leitura.
Ao meu lado, as luzes dos pequenos aparelhos alheios irradiam contaminação radioativa, mas eu fico pensando mesmo no pesadelo de Naziazeno, o protagonista de Os ratos, que cercado de agiotas e vigaristas (alguém ainda usa “vigarista” no Brasil?) segue a senda de um dia interminável.
Que livro.
Que país é este onde os ratos tomaram conta e agora muitos deles – não digo todos – estão aqui preenchendo as duzentas e pouco poltronas desta cápsula deflagrada em Porto Alegre, Província de São Pedro, e eu não vejo a hora de chegar, porque daqui a pouco apagam as luzes e eu não conseguirei chegar ao final da leitura – e, pior, nunca saberei quem deles aí dentre os presentes irá roer o meu livro.
Que livro!
Como o amanuense Naziazeno, eu também tenho medo de ratos.
E este livro, neste voo, confrontam dentro de mim o transcorrer fabuloso do texto  clássico de Dyonélio Machado com as confabulações incubadas das negociatas da Babilônia de desperdício e da corrupção da Cidade Plano Piloto, Terra Prometida, Asa Norte/ Asa Sul, ou como escreveu um deputado em 1922, “Brasília, ou qualquer outro”. Lá onde outros tantos Naziazenos miseráveis e excluídos da distribuição de renda nacional continuam a prestar seu trabalho e a alimentar a mordomia d´Os Grandes Ratos Nacionais.
Brasília, 9 horas.
Leiam o livro.


Junho de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

Nomes da Série B

CRÔNICAS ESPORTIVAS DA SÉRIE B

Estou descobrindo a Série B do Campeonato Brasileiro de futebol. Meu time, o Sport Club Internacional (tanto inglês no nome, fico pensando se não seria melhor International?), caiu lá. Literalmente, despencou para a Segundona do Brasileirão, Segunda Divisão, Série B, O horror! O horror!, escreveu Joseph Conrad em Coração das trevas, para mim, doravante simplesmente O Terror. Então o que fazer senão arregaçar as mangas, sentar na poltrona (que? alguém imagina que eu iria ao estádio a essa altura do que resta da vida?), apanhar a prancheta e por segurança também a calculadora e começar duma vez a assistir aos jogos emocionantes da Série do Calvário. Abandonar o luxo de jogar a primeira divisão e encarar o desespero aterrorizante de talvez nunca mais voltar. Credo! Bate na madeira. Aos amigos que liam estas crônicas há umas cincos, seis ciclos jurássicos atrás, quando eu achava que escrevia, abordando em meus parágrafos-delírios confusos o incrível futebol amador, o futebol de várzea, também chamado mundo real, evoluir para o comentário da Série B até que é um passo. Ou tropeço. O absurdo é o mesmo.
O jogo. O jogo de ontem. Mas como assim “o jogo de ontem”? Um cronista tem poucas razões para se manter fiel à verdade dos fatos – a não ser se quiser provar que isto é uma crônica. A partida de ontem não aconteceu para mim, eu não vi nem escutei “aquilo”, e pelo que li depois, meu time comportou-se diante da representação potiguar do ABC como um verdadeiro time de segunda divisão. De lamber os beiços, como diz a gauchada. Agora o que pensar do meu Colorado Segundado, hein? O time realmente está tomando um formato incrível de time das baixas divisões; e o que pensar da cidade, do povo porto-alegrenses? Tantos nomes grandiosos em sua História, tantas façanhas a servir de modelo, tantos eventos na cidade (a noite era dos museus) e o que vejo é aquele estacionamento em cima do lixão cheio (sabiam que tem um grande entulho soterrado ao lado do estádio Beira-Rio?). Em cima gente, embaixo lixo. Alguns dirão: é amor ao clube. Na alegria e na... incompetência de deixar cair um time com tantas guerras. Penso que é também amor ao não ter mais o que fazer de interessante. Por exemplo: escrever crônicas sobre aquilo que não se viu. O jogo, absurdo.
Bocão e Pardal foram os protagonistas do time do Rio Grande do Norte. Pelo menos do jogo que inventei aqui, hoje, nesta crônica. De Bocão nada sei, mas demonstrou junto com a equipe uma fome muito grande em ganhar dos sul-rio-grandenses. Quanto a Pardal, esse foi o passarinho que não bebeu na nossa mão (mas quanto clichê, hein, cronista?); bebeu, sim, a nossa água, a nossa rede, e o rapaz entrou em campo para estragar o vanerão – e mesmo sem chuva, essa ave que veio do topo do país bebericou bonito o gol do Inter. Depois foi só o ABC jogar pelo resultado: um a um no placar final. Mas eu confesso que estou pouco me lixando para o placar, para qualquer tipo resultado, classificação, desespero “estamos quase fora da zona de classificação”. O calvário dura 38 rodadas. Eu estou interessado é nos nomes.
Este novo projeto me obriga a isto: saber os nomes. Serão tanto a descobrir, e cada um... De clubes (ABC, CRB, Luverdense) de estádios (Mangueirão, Café, Frasqueirão) e finalmente, os que eu mais gosto, o nome dos jogadores. Desde Boa-Morte, o aguerrido cabeça-de-área da Seleção Portuguesa na Copa do Mundo de 2006, que ando à cata desses nomes. Preconceitos a parte – o único preconceito que eu tenho é de quem me diz que não tem nenhum preconceito – os nomes dos jogadores da Série B revelam a humildade desses atletas, o componente sociológico de uma distinção entre os jogadores de elite e o resto do futebol brasileiro, os times médios e pequenos, sem grandes patrocínios, partidas jogadas em campos enlameados, grama ruim, esburacado, onde o que vale mesmo é o futebol-força, não o xadrez da tática supostamente elaborada dos grandes técnicos. Meu Colorado entrou em campo achando que era um jogo de classic, um pôquer de televisão, parque de diversões, o eterno salto-alto-nariz-em-pé dos dirigentes do clube; descobriu com o gol de Pardal que a Série B está muito mais MMA do que para dança no gelo; quanto aos nomes, bom, depois do Boa-Morte...
Mesmo que alguns tenham visto um jogo de estratégias, de poker ou de Pottker, empatamos em casa. O Terror começou.


Porto Alegre, 21 de maio de 2017.

sexta-feira, 31 de março de 2017

A intermitência desta solidão continental


HOMENAGEM A JOÃO GILBERTO NOLL


Todo escritor tem os seus ciclos, suas intermitências. Alcançam momentos de lucidez, principalmente na mão de cada vez mais raros escritores, e estão aí para nos comprovar isso as perdas sucessivas de Lúcio Cardoso, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu e agora João  Gilberto Noll. Todos escreveram sobre a instabilidade do ser humano, seus fluxos e contrafluxos, numa escrita de indução, na qual os reflexos do outro ingressam em nós instaurando a perplexidade, a fluidez, o infortúnio - e sobre isso nada podemos fazer. Sempre incisivos nessa viagem à fúria do corpo, também eles tiveram os seus ciclos secos: um dia descobriram-se num vazio de ideias, de sentimentos, e daí o escrito não sai, emperra. É o ciclo seco. Enfrentá-lo, digamos, exige coragem de todo aquele ser escritor.
Lembrei disso quando tive o suspiro de ler a última crônica de Caio Fernando Abreu, publicada em Zero Hora pouco antes de sua morte (1). Nela, o escritor gaúcho aborda nossa capacidade de viver – e sobreviver – ao ciclo das mortes. O vazio, no texto de Caio, aparece nessa metáfora do ciclo das águas, o drama nordestino da falta de chuva, da escassez de algo. Um problema social que simplesmente se vive – o homem do sertão não tem muito que fazer – então vive, espera o ciclo passar. “Sobreviver demora”(2), nas palavras de outro escritor das instabilidades, Paulo Scott.
Em seu texto, Caio nos traz a dor final de pressentir-se como uma fruta que murcha, feito ameixa seca, vazia, sem vida. A vida que lhe vai, escapa, foge – meras palavras a identificar no texto a falta de tudo – vazio, morte, ausência de prazer ou inspiração. O ciclo de Caio é seco e não admite adjetivos. Ele vai. Ele volta. Quando chega, não bate, entra, instala-se de maneira antinatural em nossas vidas. Fica. E se faz natural.
Aquela dor de Caio, escritor terminal, é a dor do leitor, este que pressente no texto a ausência de tudo – vazio – o fim de um ciclo.
A dor de hoje sabermos sobre a perda de mais um grande escritor brasileiro - e saber que jamais serão produzidas palavras como as encontramos nas veredas penetrantes do infinito particular de João Gilberto Noll - por também ele, vivendo os seus últimos dias praticamente sozinho dentro de seu apartamento, numa espécie de solidão continental que ele mesmo escreveu, encerra agora um ciclo.
A intermitência de um ciclo que se seca. E vai. E foi.
Muitos ainda descobrirão João Gilberto Noll. Tardiamente, digamos, porque lá adiante ele já estará morto; suas perguntas, contudo, restarão.

Fins de março de 2017
_________________
(1)  Introdução ao estudo do ciclo seco” in: Zero Hora, Cultura, 10.02.1996, p.6.
(2)   in: A timidez do monstro. S.Paulo: Objetiva, 2006.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Gancho

 Nem bem havia subido as escadas que dava acesso à embarcação e ouviu atrás de si aquela voz rouca na escuridão:
– Boa noite.
Era um boa noite carregado de um sotaque pastoso, de gente lá do Oeste. O capitão foi rápido, e virou-se:
           – Quem sobe lá?
A resposta era calculada, intervalada, silenciosa, e a chuva era apenas um estorvo a mais no diálogo:
– Sou o candidato à vaga de marinheiro. O sobrevivente. O único. Do naufrágio do SS Oregan. O senhor deve ter lido nos jornais.
– Eu não leio jornais; eu comando este barco.
Ficaram se olhando por um tempo – e o tempo apertando – da maneira que podem se olhar dois estranhos a certa hora perdida da noite, já madrugada, cais do porto vazio, região afastada, cidade de Portland. A figura que chegara junto e no encalço do capitão era ainda mais escura sob uma capa preta, os pingos escorrendo pela beirada, enquanto ao lado o braço do homem carregava um longo metal encurvado, semelhante a um pequeno arpão. O comandante da embarcação retomou:
– Mas ouvi falar do fim do Capitão London. Afundou o próprio barco como me contaram. É uma história estranha, não acha filho?
Novamente silêncio, o mais novo não respondia, e o único som entre aqueles dois homens vinha apenas do contínuo cair das águas, chuva imprópria a atrapalhar aquele dia de negociação. O capitão não desistia:
– Quer dizer que ele afundou o barco, foi isso que contaram? Fiquei sabendo que depois foi encontrado com um rasgão no meio das costas, a milhas do desastre... Como se um arpão tivesse sido atirado contra ele.
Os dois homens ainda ficaram se olhando um tempo, o recém-chegado mirando para todos os lados do convés, como se buscasse a presença de mais alguém, enquanto o capitão permanecia parado, olhar fixo nos movimentos do outro.
– Nada sei. Fui resgatado entre os últimos escombros do que sobrou por outro barco pesqueiro que passava, explicou o novato.
– Então quer dizer que não sabia nada sobre a traição sofrida pelo velho Jack?
Mais uma vez o silêncio ocupando largos espaços na conversa, acompanhado por novas golfadas de chuva fria, cada vez mais forte, horizontal, indireta. Ninguém ali conseguia ver nada. E enquanto o novo marinheiro ia subindo a rampa e afastando a água com seus passos pesados, o capitão recuava, e recuando ficava cada vez menor diante do gancho que agora subia e brilhava pelas linhas turvas do céu-horizonte, o palpitar dos ânimos, o barco a balançar nas águas inquietas da dúvida, quem seria ele?, e ele era o único marinheiro sobrevivente do terrível naufrágio do pesqueiro SS Oregon, cujo capitão, o velho Jack London, foi encontrado morto com uma fisgada nas costas, segundo contaram, ninguém mais sabe, ninguém mais viu.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Expurgo


Se eu não tomar cuidado, perderei o costume de estar com outras pessoas.
Sherwood Anderson
In Winesburg, Ohio

No corredor do hospital, um diálogo entre médico e paciente tem a rapidez dos insucessos.
– É definitivo, doutor?
– Seis meses de vida.
Estamos em pleno atendimento público, nesses corredores brancos da ineficiência do serviço público. O paciente lembra alguém esquecido – e ele olha fixamente para o médico na porta do consultório. Nem pode entrar, e motivos públicos e privados impediram que o médico desse maiores explicações.
– O que não tem solução, solucionado está; nosso tempo terminou. Era a voz de termômetro do médico, num gesto de alguém que solta o outro no abismo.
O médico fala, depois roda sobre si mesmo e sai caminhando pelo quadriculado das paredes encardidas daquela instituição hospitalar; neste momento o paciente também se vira, e diante dele, do outro lado do corredor, numa pequena porta, a placa:

                                               EXPURGO

Nada poderia ser mais conveniente nesta hora.

                                               ***

Ainda no corredor do hospital, a placa o acorda para outra necessidade premente, sua, atual: o que é afinal expurgo?
Diante da placa, feito animal, besta, criatura pronta para o abate ele lê e relê a placa... E neste abandono em que se encontra, o absurdo de pensar nisso quando você acaba de receber a notícia definitiva, aquele marco, limite, ponto final.
– Seis meses de vida.
Estamos num hospital. No centro do corredor, o olhar deste homem sobe e desce, acompanhando a neutralidade das paredes brancas, flutua, então tudo se fecha ao seu redor, a notícia cria ângulos, afasta perspectivas, e uma voz suave lhe diz:
– Nosso tempo terminou.
Eis a única notícia a sofrer expurgo de dentro dele, então ele abre a porta e entra.

                                               ***
A placa. O hospital. Cujo nome, Santa Terezinha, lembra a este homem, o paciente, o expurgo de algum outro abandono.
Tereza. O nome. A esposa do sujeito enjalecado. Também ela tinha dito, e agora tudo faz o maior sentido:
– É definitivo.

E nada mais.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Almoço

In memoriam

Estranhei naquele dia ela ter me convidado para almoçar, entre nós, algo até então raro. Tinha ela a idade de minha mãe, os seus cabelos eram os meus cabelos, seu caminhar (eu já havia reparado) lembrava os passos do jeito de andar que um dia foi de minha mãe – antes de ela morrer.
Quem me convidou foi Dona Lúcia, ou Lucinha como todos a chamavam na secção da contabilidade da companhia. Que apareceu à minha frente no estertor do final da manhã – meio dia cheio de fome – e eu levei um tremendo susto. Foi logo me convidando, entendi que era assim meio determinando (afinal ela era a minha chefe):
– Vamos almoçar? Não esquece de levar um documento.
Era mesmo para ser esquisito aquele dia: alguém te convida para almoçar e no alto dos teus desesperados 32 anos, sim, você já seria bem capaz de saber que nunca se anda no Centro Histórico desta barbárie sem portar documentos.
– A identidade, era ela, novamente do seu jeito, sempre rápida e minuciosa, foi logo me cercando como se já estivesse esperando que eu abrisse a bolsa, mostrasse a carteira.
Daí apanhou a minha mão.

***

Na mesa, notei que ela me olhava além do que seria recomendável num almoço entre duas pessoas de idades tão continentais. Queria apenas me ouvir, revelou. Mas era como se buscasse em mim algum traço distante. No entanto conhecia-me muito bem desde a formatura em Ciências Contábeis, quando o seu presente alcançou valores constrangedores para a ex-estagiária que eu era, recém-contratada pela WS Auditores. Mas eu estava feliz – e feliz vivi estes últimos nove anos lá na empresa. Sem percalços ou dificuldades, ali o meu caminho foi facilitado de forma muito tranquila; a tal ponto de hoje também ter meus próprios subordinados no mundo das contas e do realizável. E havia Dona Lúcia, sempre presente, ali próxima, acompanhando a minha carreira numa distância regulamentar. Pragmática na orientação, e por isso sempre me pareceu muito rígida. O afeto, este nunca foi o seu forte.
Até aquele dia.
Quando, terminado o almoço, ela novamente agarrou a minha mão (eu já não estava mais acostumada aquilo), agarrou de uma forma como fazia a minha avó (um tempo ficou nisso), e do jeito carinhoso que só os avós sabem fazer, e em seguida levou-me do restaurante até o prédio vizinho, bastante conhecido pelas formalidades do seu negócio, e numa fala alegre picante foi logo dizendo:
– Agora a sobremesa.
O dia era de estranhezas mesmo.
O cartório: prédio de arquitetura ríspida, de interior enxuto e escuro, local onde a rigidez e o alinhamento do balcão das mesas contrastava com os excessos de intimidade do tabelião, que ao nos ver foi assim-sorriso-braços-abertos:
– Então ela resolver vir, Lucinha?
Nada entendi.
Como de resto não entendi a disposição testamentária que me fez sua única herdeira.



Novembro de 2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Sobre formigas (e mortos)


Na reunião do grupo de trabalho de prevenções a epidemias, quando pediram o açucareiro para dosar o cafezinho, alguém apontou e foi logo avisando:
– Está cheio de formigas.
O representante dos estatutários veio em auxílio com o velho clichê, comentário com gosto de mala:
– Dizem faz bem para os olhos.
E todos riram.
Depois silêncio.
Que foi quebrado desde a outra extremidade oval da mesa pela diretora do hospital, que aos gritos irrompeu:
– Do açúcar ao morgue, e vice-versa; caminham por todo o hospital; não respeitam nem os mortos. Praga.
Todos estancaram suas xícaras no ar, movimento paralisante e nervoso – e o café foi definitivamente rejeitado naquele dia; dia que ficou consagrado a explicações sobre a organização das formigas e seus caminhos pelos corpos mortos da câmara mortuária. Onde, agora todos sabiam, também circulavam os pequenos insetos.

O único que continuou bebericando seu cafezinho foi o Hidelfonso, mas Hidelfonso não conta, ele sempre foi um peso morto na assemvleia dos mortos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

As pequenas mentiras

Ligo para o amigo que está de aniversário numa dessas capitais litorâneas de coisa nenhuma e digo:
– Estou escutando Elis Regina em homenagem ao amigo. E aí, como vão as coisas nessa capital da fantasia? Muita saudade da província?
É uma pequena mentira, como seria mentiroso dizer que estou escutando Elis Regina em comemoração aos seus 70 anos – mas eu pergunto o que é uma pequena mentira quando um oceano de distâncias nos separa? Quando não há nenhum equívoco em dizer que já estamos separados a um tempo tão longo e distante que eu nem lembro mais o seu nome. Lembro passeios, encontros, conversas, sonhos, desentendimentos, aquela circunstância que eu sempre crio de ficar longe do fato de estar bem perto de ficar cada mais longe, este círculo:
Ele me perguntando:
– Que surpresa é essa se... se não nos vemos há tanto tempo, não é mesmo, José?
Eu grudado ao aparelho, neste linha frágil que nos unia, a dificuldade de continuar aquela conversa, levar adiante tanta ironia, toda essa poesia que sempre foi o forte dele, enquanto dentro de mim jogo, subterfúgio, espelhamento, vazio.
As pequenas mentiras.
A primeira delas: a de acreditar que estou conversando com alguém, que estou aqui, que escrevo, sinto, antevejo:

Fim.

domingo, 31 de julho de 2016

O colchão

Dona Maria de Lourdes ainda não sabe, mas foi no mesmo instante-segundo-momento em que escutou o baque, o estalo surdo de madeira partida, que sua estratégia se foi. Desandou. E com ela partem abraçados juntos e de mãos dadas todos os seus sonhos. Os de garantir uma vida segura para sua única amada filha.
Quanto ao som abafado deste desdobramento trágico, Maria de Lourdes sabe de onde vem. Dos fundos da casa, do quarto da filha Giovana, a menina crescida que há poucos dias completava quinze anos. Comemorados com bolo caseiro e aquele inusitado presente – sobre a cama jaz agora... um colchão. Dobrado, o estranho presente ganho da mãe pela menina Giovana é a prova seca daquela vilania materna, do desastre de uma tosca estratégia mal pensada. O colchão. Esta é uma história de erros e medidas.
No quarto, sobre o dorso afundado na cama, repousa o inusitado presente da mãe, este objeto de casal que surgirá depois aos olhos espantados dos vizinhos que acorreram à gritaria, para saberem da cena, esta mesma encenação que a mãe agora assiste agora como a um fado, fato sobre o qual nada mais pode fazer, pobre destino... Quem sabe um aviso de que não seria mesmo desta vez que deixariam aquela vida de miséria-periferia-violência. Contudo hoje, para os intentos rudes e práticos da dona-de-casa Maria de Lourdes, hoje ela descobre que os seus sonhos não se realizarão. Definitivamente, hoje não.
E tudo porque ao entrar no quarto da tragédia consumada ela encontra quem ela sabe que iria encontrar: os dois. Mas não é o fato de haver no quarto, sobre a cama partida, dois seres, duas pessoas adolescentes, sua filha e o rapaz do colégio, não é isso o que lhe causa mais espanto. Isso ela já sabia pelo pacto sinistro, pretérito e acordado com a filha. É antes o fato de não ter se lembrado da cama, da estrutura quem sabe frágil daquela antiga cama de casal, antes sua, por anos e onde seu marido tanto a maltratou antes de partir de vez embora; agora a cama foi destacada para o quarto da filha, naquela missão; e o que mais lhe mói por dentro, agora, é ter lembrado apenas do colchão. Quando então descobre afinal que foram as condições da cama que impedirem o ato-fato-consumado, ali, a filha trazendo o suposto namorado, segundo os cálculos da mãe, o futuro esposo, o bom-partido que traria prosperidade à família. Não – tudo acaba no chão, ou melhor, na cama que se partiu enquanto dobrado – mas intacto, novo – aquele colchão.

Também como saber que o sujeito ali deitado era ele o verdadeiro amor da filha, e não o príncipe encantado tão desejado e escolhido a dedo pela ambiciosa mãe dentre os pares da filha no colégio dos ricos. Esta mãe que agora chora à porta do quarto ao testemunhar o instante dantesco daqueles dois juntos, agarrados: sua doce e delicada filha acompanhada daquele sapo gordo brutamontes – quem-quem-quem? – ora, aquele inútil do Zé Maria, o pesadinho do Beco de Trás.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O último otário

 Quando o chefe chegou empolando sua voz numa sintaxe contábil confusa foi aí que ele me contou:
– Desde estagiário já sabia que o melhor é sempre carregar um ofício nas mãos; assim ninguém me dá trabalho.
Foi então eu não tive mais dúvida – e a ideia.
Olhei o ofício em sua mesa como quem olha um objeto qualquer, visitando morto no enterro desavisado.
Tratei logo de desviar o assunto para o crescimento em forma de bolha da empresa; as contas pendentes, as despesas correntes; também lembrei de comentar sobre a nova remessa de equipamentos, as promessas de lucros e dividendos, e foi mais ou menos por aí que aproveitei sua empolgação (ele sempre ergue os olhos feito profeta), olhei para os lados (não havia testemunhas), deslizei a mão sinistra e surrupiei aquele ofício importante, sempre sorrindo num exercício futuro.
Tinha gosto ruim aquele ofício, mas o que fazer se você tem que eliminar provas antes de sair? Percebendo o meu transtorno, aquele mal-estar repentino (indigestão), ele ainda foi solícito e me ofereceu um copo de água.
Eu tinha sede.
Era como se eu tivesse me engasgado diante dele.
Muita sede.
Havia graça ele me servindo água?
Bebi, depois sorri.

Estava eu diante do último otário... e não sabia.

sábado, 21 de maio de 2016

GW

            No entardecer destas luzes artificiais – o leito de morte em que entreguei a parte capitalizada do meu dia – a sala da contabilidade – encontro-a no olhar rápido dos que estão à beira da entrega, dos que estão de saída, e tenho um só pensamento: chamar a sua atenção.
            Falo de bancos.
            Duplicatas.
            Saldos duvidosos.
            E penso no meu coração amortizado.
            Esta mulher: GW Financial Times,

            Meu amor diferido.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

DP


Inspirado numa história de bar

              Outra vez nas ruas – à procura.
        Durante anos, sozinho, nenhum outro divertimento que não fosse a lembrança daqueles gloriosos dias,  a dois; noutros a três, fosse quatro só o desempenho em cena contava.
          Agora pelas ruas, o circuito sinuoso pelas ruas internas do Bairro dos Prazeres/Brás, em busca... Sim, em busca dela, a parceira.
            Foram anos e anos de produção nos ambientes mais escusos da indústria cinematográfica. Os companheiros de set. As beldades. Ela. A delegada. Minha carreira interrompida – e toda produção abruptamente encerrada, no auge, por conta daquela brincadeira.
             Meus amores na delegacia.
             Dois bandidos. A delegada. Eu fazendo o papel de durão, comandando a cena. A três.
             Então alguém da Corregedoria não gostou; censuraram o filme; acabaram com a produção.
             Faltava fechar a Boca do Lixo.
            Fecharam. Anos 1980. Repressão.
           Agora nas ruas, giro minha ânsia em busca da garota perfeita, o par, apelo sexual que ainda me move, dez ou doze comprimidos por dia, ainda consigo constituir isto: o desejo.
            Encontro-a no semáforo. Reconheço. Trinta anos esta noite. Arrancamos juntos, persigo, pelas ruas deste bairro, e depois de quadras – aquilo:
           Ela para, estaciona, vejo, miragem, talvez sim, quem sabe não é a filha da delegada, ou da atriz que fazia a delegada naquele filme pornô eternamente censurado.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Os comprimidos não mentem

Para C.D., pela inspiração

 A cartela na minha frente não mente. Ela me lembra o pesadelo periférico cujo desdobramento, vejo agora diante de mim: a dor de cabeça. Por um momento resolvida no instante exato em que a colega  vem ao meu socorro, apanha da bolsa, dentro dela retira a cartela e me apresenta : paracetamol.

Difícil não reparar no desalinhamento do pequeno envelope. Oito pontos. Dois abertos, os comprimidos já retirados. Um buraco no topo, à esquerda; o outro abaixo, no canto, à direita. Impossível não reparar no desalinho, a falta de sistemática de quem retirou os comprimidos e não seguiu padrão nenhum. Desordem. Esculhambação. Brasil. A nossa vida não tem que ser assim. Meu olhar é um jato, lanço a pergunta:

– Apanho aqui, ou ali?, e dizendo isto fui apontando os locais disponíveis ao lado das crateras aleatoriamente deixadas na cartela, isto nas outras duas vezes que alguém utilizou-se dos comprimidos...

A colega também me olha, parece pensar: Galáxia estranha esse sujeito. Porque é nítida a impressão que tenho dela não acredita no que está escutando. Parece perguntar: como alguém pode ficar pensando na ordem correta de retirada dos comprimidos de uma cartela estando, como está, altamente febril? Diga, como? E no entanto ainda permaneço diante dela um tempo, o olhar parado, de pé, sem sair do lugar, sempre com a cartela na mão, esperando sua decisão final.
– Qualquer uma.

É quando começo a refletir sobre a situação – não exatamente sobre o meu estado de saúde, não sobre o calor dessa febre alta, não sobre essa proximidade do caos –, quase esqueço o mal-estar, não; perco-me numa matemática absurda, o dedo a percorrer o envelope do medicamento, e então conto até dez, percorro a saliência de todos os pontos brancos redondos restantes da cartela e na lentidão dos enfermos eu aponto um dos comprimidos do canto restantes, estabeleço um padrão, quebro o plástico, deixo cair a pedrinha na palma da mão, e passo a enxergar um padrão claro e definido: cada uma das drágeas retiradas saiu de um dos quatro cantos – e tenho certeza que o próximo a utilizá-la saberá disso. Então fico mais tranquilo, sei, esse febre não vai baixar (há muita dor a me perseguir), mesmo assim ergo o copo d´água, engulo o remédio e fico por um instante acreditando que o mundo agora anda melhor porque os comprimidos, os comprimidos não mentem.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Hálito

Povo marcado / Êh, povo feliz!
Zé Ramalho

Vejo, sinto, entendi: tem vezes que até pressinto. Hálito. Bocas. Meus eros desejos correm soltos nessas ruas estreitas do centro da cidade. O passeio me condena: rumo em linha quase reta pelo calçamento dessas vias entreveradas de gente.
O povo.
Busco estas pessoas, o contato, realejo humano que me anima e remete a pretéritos sentimentos contidos (ora expandidos) de cirurgião dentista. Dias esses em que ficava no consultório até tarde da noite aplicado na vocação e às horas tardes atendendo a comunidade de necessitados. Tantos. Tolos (não sabiam) a me perseguirem em procedimentos administrativos escusos.
Hoje sou mais direto, enfático e – grande vantagem – não preciso do aparato de instrumentos, sala, cadeira reclinada, avental, e aqueles ridículos sapatos brancos. Poucos me exigem o suado aperto de mão.
Não.

Hoje não. Basta apenas encontrá-los, essa massa em pardo desmaio, engrenagem que cruza pelas ruas sem projeto ou futuro. Apenas vivem ou esperam novas possibilidades. E deixo alguns passarem. Antes seguro, palavra, braço: Como vai, lembra de mim? Apenas o suficiente para que por instantes sejam meus. O tempo suficiente para que possam chegar bem perto – e eu bem perto deles. Quem? Não lembro. E novamente reviver o único hálito das horas.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Fotografias



Nesses balanços que faço no último dia do ano, ao final da noite, sobram para mim a inaptidão com a lentilha, o desbunde com a espumante e a seleção de fotografias.
Para melhor dizer, nunca tive problema com lentilha – aquela tradição dos três pedidos que, hoje, pelas minhas contas, já somam quase uma centena de irrealizações. Hoje, é estranho, a lentinha queimou.
A espumante é o modo mais chique de coroar a bandalheira de um ano mergulhado em muito álcool, e se aqui escrevo é porque ainda não começou a noite. No último ano, ela terminou cedo, comigo deitado, falando sozinho no sofá deste amplo apartamento deserto.
Tudo começa a se complicar quando chega a hora das fotografias: todas aquelas que queimo na churrasqueira no final do ano, numa tentativa clara e persistente de apagar o meu passado – e o passado se arrasta atrás de mim. Festas. Falsos convidados. Família. A solidão das festas em família.
Este ano decidi fazer diferente. Fui procurar fotos na internet. Comecei pelas mães. Procurei várias – e várias eu encontrei.
Passarei a última noite do ano com elas.

Escrito no último dia do ano de 2015.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Federal

Todos os dias, sem muito pensar, ele embarcava no ônibus da linha metropolitana que atendia as quatro cidades grudadas na capital – e sentava no mesmo lugar. Escolhido, nesses todos dias, por um único critério e ponto de vista. Afinal, era preciso invariavelmente ficar no ponto estratégico daquele coletivo. O único lugar, aliás, em que sabido ele poderia observar todo o movimento. E toda ação. Dele, o cobrador. Que ao longo do trajeto de hora e meia – paradoxo – era a única pessoa que não tinha lugar certo nem definido. Nos intermunicipais daquela época o trocador cobrava a passagem de pé. Circulava pelo corredor. Pastinha presa debaixo do braço, ali as notas, ali os bilhetes. As passagens eram cobradas a partir do fundo do carro, da condução, pelo longo caminho, tortuoso, espaço apertado por entre o bate-e-encosta junto aos passageiros (repito, de todos que restavam de pé). Os coletivos viviam lotados. Cobrava do fundo para a frente do ônibus, num vai e vem que se consumia pela tentativa de fazer duas coisas ao mesmo tempo: cobrar a passagem e avançar com o veículo em movimento. Balanço. Calor demasiado humano. Inclinação. Frenagem. Novo malabarismo. Cheiro de óleo, de freio, suor, alguma incompreensão. E os solavancos do motorista lá na frente faziam das notas e das pequenas moedas objetos de alto risco monetário; media-se o bom cobrador pela habilidade de nunca deixar nada cair no chão. Nem os bilhetes! Principalmente os bilhetes. A magia dos tíquetes. Presos em talonário fixo à pastinha de braço. Objeto grudado ao seu corpo. De onde se retiravam as passagens. A diferença dos trajetos inscritos nas cores dos comprovantes cuja entrega deveria ser feito pelo passageiro na saída, para o motorista, fiscal, escambau; e essa diferença nas cores definia também os preços de acordo com a distância do trajeto pago, percorrido, ali, muitos de pé mesmo. E eram exatamente as cores dos bilhetes que mais fascinavam o passageiro daquela agonia: a de conferir cores e trajetos, escolhas e pagamentos, as mesmas pessoas, a mesma bilhetagem. Ele sempre escolhia uma cor diferente, um trajeto adverso, um local de descida ao longo da BR-116, a Federal. Até o dia em que trocaram o rapaz que cobrava, surgiu ela, mãos em riste, unha, batom, a primeira cobradora da empresa de ônibus, e no embaraço daquela viagem de contrariedade, aconteceu de ele pedir o ticket de uma cor e descer na outra, e na atrapalhação do pedido/descida, ele fez menção de desembarcar no ponto errado, o motorista não gostou, o fiscal viajava junto, e ele nunca mais pode entrar no ônibus da linha Federal.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Trilogia do Enfado - III

O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS - III  (ESTANTES)

 No percorrer desta ampla hora em que discorreu sobre as vantagens de seu produto, ele tinha os olhos cegos na paisagem desenhada à sua frente.
Ele, o vendedor de enciclopédias.
Eram livros também o que ele tinha diante de si, justo que como um vício ele ficou feito estátua a olhar aquela estante enfileirada de poeira e livros (os livros, ele sabem, não são lidos naquela casa). E pensando na disposição das coisas naquela estante, ele agora se dá conta de que ela está diferente, que ela não o reconheceu na chegada, e diferente de outras vezes (o único ponto de contato com sua memória) ela está realmente muito bem arrumada.
Ainda espera um instante (tempo), desvia os olhos (insistência), e como se estivesse a observar pela décima quinta vez a velha e conhecida estante (repetição), ele faz a pergunta, e sempre surge aquela pergunta:
– Vai ser hoje?
Sente como um impacto, soco no estômago, o longo tempo de reação dela (já foi mais atilada), e realmente estranha esse proceder lento na manhã de hoje, mas é só então que percebe o frasco vazio em suas mãos, aquelas letras médicas, a decisão antes anunciada, a cada visita, essa necessidade que ele sente de simular a compra e a venda quando já sabe de antemão que os sentimentos delas não se medem por metro quadrado como estantes na sala de uma casa de periferia – não ele estava em busca da derradeira confirmação.
O enfado e a indiferença de enxergá-la na zona gris localizada logo ali, perto do fim: então ela deita a cabeça, ainda consegue dizer baixinho Me deixa, avança no sono, profundo, definitivo, talvez o seu último sono, e assim pensando-sentindo-danando ele se levanta e decidido a desistir definitivamente daquela velha empreitada barraca, fecha a porta, avança pelo silêncio partido das folhas do pátio, ainda pensa mais uma vez no ridículo daquelas estantes.

A vida morta de um vendedor de enciclopédias.

sábado, 17 de outubro de 2015

Trilogia do Enfado - II

O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS - II  (SALA DE ESPERA)

Sentado diante das paredes lisas desta sala de espera na casa-e-conjugado de bairro distante em que agora se encontra, ele espera.
Ele, o vendedor de enciclopédias.
Representa muito esse tempo em que estacionado no macio gasto deste sofá. Representa horas, dias, esse infinito entre o pedido de um copo d’água e agora esta morrinha, esta espera.
Única distração: olhar as mãos, verificar os anos que passou entre calçadas de bairros de periferia de cidades deste Brasil, e agora ali: em terno surrado e gravata nada menos, vendendo coleções de conhecimentos que, sabe, mofarão em estantes de casas como esta:
Confins, bairro carioca.
Rua das Traças, número 150.
O destino de alguém que veio de tão longe, agora, isto: mero vendedor de livros por metro quadrado, essas coleções volumosas de maciço conhecimento, hoje em dia um objeto quase descartável, sim, ele sabe que já não é mais um homem “de hoje em dia”.
A consciência disso. O compasso desta espera. Então ela retorna, lenta, com o copo d’água entre as mãos, e a sede é tanta que nem repara que ela trocou de roupa, penteou os cabelos e que nada tem do cheiro das cozinhas dessas casas às onze da manhã, mas sim o tremor de terra pulsante dos solteiros e solitários que, exatamente como ele, vendem por palavras um mundo feito de sonhos.
É assim, falando de sonhos, de tudo que se pode encontrar adquirindo nossos produtos, que ele inicia a conversa programada sobre a coleção que está vendendo, enquanto os olhos delas são duas forças motrizes em sua direção, a receber, quem sabe, uma resposta sincera deste homem surrado que já percorrer tanto na vida – e agora isto:
Apenas a próxima venda.
O convencimento.
A boa fala, a impostação de voz e a coluna ereta.
E então ele desanda a falar sobre a importância de dispor das excelentes encadernações, da quantidade de saber ali depositado, a beleza desses volumes em sua estante, o conhecimento que a senhora pode adquirir para seus filhos não tenho ou para o seu marido viajando e então ele lembra do tanto que já percorreu, chão-batido-poeira-este-país, casas de periferia, a mesma fala, o mesmo cheiro, o mesmo enfado.

A vida seca de um vendedor de enciclopédias.

domingo, 30 de agosto de 2015

Trilogia do enfado - I

O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS - I  (O PORTÃO)



Esta rua, a rua em que agora se encontra parado, sempre lhe deu sono. Quem sabe pela longa extensão de muros, roseiras secas e cercas baixas, repetição do casario, bairro carioca, esse jeito que o povo daqui tem em recebê-lo.
Ele, o vendedor de enciclopédias.
Parado diante do portão, ele pensa. Pensa no embuchado dos dias, no aborrecimento destas portas em que toda semana, num circuito perfeito e matematicamente calculado, ele retorna.
Rua das Traças.
            Que nome este que alguém poderia dar a um lugar tão narcótico, agastado pelas horas, silencioso, em que os únicos sons a concorrer com o pisar de seus gastos sapatos são, lá do outro lado da rua, o latido do cão e a chegada do carteiro.
Ele, contudo, tem outra missão: vender enciclopédias. E, no entanto, já faz dez minutos que estará parado em frente ao número 150 da Rua das Traças. Só agora bate palmas, chama, lembra o nome, sabe quem vai encontrar, e é quando a Senhora Maria Teresa Ferreira dos Santos Azevedo abre a porta da casa que ele tem a certeza de que agora, sim, poderá fartar-se de abusar da paciência de sua melhor cliente.
Já vendeu de tudo para ela; hoje são enciclopédias que ele traz na grande maleta roxa que carrega presa à mão junto ao corpo em terno e gravata.
Ela se aproxima, chega na qualidade média de uma temperatura morna, indigesta em trajes tais – pijama, camisola, seja-lá-o-que-for na cabeça – e sonolenta (mesmo que sejam dez da manhã) pergunta:
– Posso ajudar?
A boca seca, seco de ideias, rodízio, fastio, ele apenas pede para entrar, quer mostrar a sua melhor mercadoria, a senhora tem uma água enquanto segue nessas estopadas que todo vendedor de enciclopédia tem que saber usar para vencer na vida e sobreviver no negócio.
O portão range – o primeiro passo tem a semelhança de uma morrinha em quatro capítulos – e este será o tom da conversa do vendedor de enciclopédia na próxima uma hora e meia.