Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Homesick


...inspire in me the desire in me to never go home.


Haviam lhe explicado: o descolamento do realidade, a associação incessante de ideias, o balanço pendular de um tema ao outro, a propensão agressiva ao desatino, o desprendimento afetivo e o deslocamento do mundo das coisas (e das pessoas) o levaram àquilo: ao momento em que tudo se desconectaria... O ato, o fato, o último movimento, a intenção peremptória, estalos de uma certeza, agora condução. Reunidas as instâncias de uma memória vaga e já esquecida, tudo é passado, ele passado. No curto-circuito dessa lembrança fria – afogado que levanta o pescoço –, ele está cruzando as portas de ferro de sua nova casa, e a casa bem longe dele.

E por toda vida.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Violência

Pessoa alguma era semelhante a Klaus, e essa crueza da separação atingiu-se de maneira violenta desde cedo.
E por toda vida.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

O conformista


De onde estava, pouco ele conseguia ver. Confusão de luzes e movimentos, e os cruzados guerreiros em busca da vitória. Sequências irreparáveis para perfeita comunhão com o gol – retidas na memória. Imagens épicas e passadas, de grandes partidas vividas, pretéritas, os amigos pelejando pelo flutuante placar, ele defendendo tudo e todas. Ele, o desajustado. Agora, enquanto ele estava sentado ali à beira do gramado, via-se como um inútil (peça fora da engrenagem) que nada podia fazer. A única coisa que o alucinava era o frio – cortante tropeço do atacante diante do gol – mas a noite fria estava a enrijecer não só a sua precária preparação como o seu entendimento. Longo tempo de espera, uma vida por uns minutos de futebol, duas horas para chegar até ali, dez minutos de futebol, mas não era só isso. Havia alguma coisa na linha do horizonte do gramado que o perturbava: a dança de braços e pernas, passadas voadoras, o descarrilo de alguns em linha reta, ébrios tropeços, cenas grotescas de uma partida de futebol de várzea, vista, assim, deste ponto de vista: no cru assento de uma arquibancada de beira de campo. Destino de quem não teve melhor sorte (e nem lugar) nessa noite em que os refletores estiveram longe de si; noite em que trocou a condição de titular por alguns minutos de parceria com os amigos. Sentado, imaginava-se em campo, ajudando a equipe; imaginava também as razões que o teriam levado à solidão das escarpas do gramado. Destino, desatino: observar o porvir de uma partida e dela não ter a menor consciência. Prevista interferência. Ruído, exclusão. Corrida em direção ao nada. Aceleração da paralisia. Ele, espectador de luxo que apenas acompanhava o desatino dos amigos em campo, era o signo do conformismo. Em meio a esse devaneio, chamaram-no para entrar em campo. O absurdo não tem hora certa.
A bola chutada. O chute perdido num toque de canela, na falta de classe, no desperdício da jogada morta. A desistência do atacante, crente, este, de que a conclusão errada faz virar o rosto do companheiro de equipe. Mas o goleiro, essa peça rara de engenharia, de movimentos mecânicos e escudos reflexivos, o eterno marido das traves e da instância desafiadora da tragédia, esse era o homem que podia viver a solidão da desgraça consumada; sim, ele, que instantes atrás aceitava a reserva técnica de seu futebol quaternário, quieto esperou o grande momento de demonstrar o seu talento para a tragédia. Ele só precisou de dois minutos para mostrar o que acontece durante o desterro da fria espera – os goleiros são muito suscetíveis às intempéries. Alguns são emotivos.
Na noite de ontem, este foi. Como um autômato, ele entrou em campo e não viu o chute pálido, o cruzamento cinza do atacante que ganhou a ponta da área e chutou. A bola passou ao lado, rente, morna. Constrangida, ela entrou.
"Melhor retornar", agora é ele pensando. "Esquecer." Imagina-se como se sentasse no cômodo fracasso dos seus 42 anos, animal quieto na estância recuperadora que, agora sabe, é o banco de reserva. Conformar-se com o destino, negar o desatino. Fugir da dor de quem persegue e nunca alcança. "Melhor fora do que no centro deste desmoronamento", sim. "Sim, o time parou", ele ainda pensou.
Ele, o conformista.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

A garota do vigésimo quarto andar

Para K.

É a sétima vez que ela retorna do banheiro. Contei (acredite, contadores fazem isso o dia inteiro). Incrível, mas a garota da janela do vigésimo quarto andar do prédio ao lado já foi ao banheiro sete vezes nesta manhã que nos separa, de um lado sua mesa cheia de trabalho, do outro, minhas fantasias perdidas entre números. O chefe já me repreendeu e mais uma vez disse que não devo procurar diferenças no invisível, muito menos na vizinhança. Sinto que ele está de olho na mentira que é o meu trabalho, mas eu também sei que ele esconde não só diferenças, mas negócios escusos em telefonemas silenciosos dentro de salas fechadas. No outro prédio, ela, a única luz neste mar cinzento de arranha-céus, cobranças e fechamentos, hoje ela está diferente. Notei que, como em outros dias, toda vez que volta do banheiro, caminha esfregando o nariz. Daqui, de atrás da cerca de vidro que me protege, fiquei a imaginar em minha cabeça de agrimensor de números: gripes, resfriados mal curados, alergias perpétuas, carpetes infestados de ácaros, ar-condicionado entupidos, a pressão no trabalho, o medo de despedida ou algum namoro rompido (eu sou mesmo criativo com as probabilidades de tentativa e erro). Nada disso. A exatidão é outra: é dela. Enquanto isso, erro na soma de tudo, e os meus constantes erros são objetos do apressado do meu chefe que, sem explicação, para diante de minha mesa, criatura insistente, mãos na cintura, sempre falante, os movimentos rápidos e autoritários (ele está me solicitando o fechamento do relatório até o final do dia). Nem escuto, só concordo. Meu pescoço é um organismo a servido da Contabilidade e da concordância em gênero e número. Ele fica ali, estátua da impaciência, deselegante ao completo. Sim, por trás de seu terno vintage despojado vejo Karla (imagino que deva ser este o seu nome), mas o chato e inconveniente do meu chefe continua ali. Reparo que ele também leva a mão ao rosto e coça o nariz com frequência, e isso me lembra que talvez eu seja o único desprovido de vícios neste escritório. Do café ao donuts, passando pelas horas extras intermináveis, todos aqui têm uma queda pelo abismo. Os passageiros da escuridão. A minha perdição tem endereço: as janelas do 24º andar. O meu único interesse é olhar Karla. (Alívio: o gerente das contas prontas sai da sala.) Na janela defronte, ela se levanta de novo; sua necessidade é o meu delírio. Torço para que ela siga pelo melhor traçado, e volte com a alegria renovada de quem trabalha entediada o dia inteiro em uma sala do vigésimo quarto andar. Porque depois eu já sei: sai no início da noite, caminha até a estação, são nove paradas de metrô, algumas quadras a pé, ela sempre chega sozinha em casa.
Hoje não poderei segui-la. Por certo, o homem do terno chumbo não vai me liberar antes das nove.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Vanessa

CRÔNICAS A MEU FILHO

A doçura dos oito anos de idade alinhados para mais um dia de aula. O vento a lhe erguer o queixo, a sobrancelha, a reticência diante do estranho que represento e sou. Vejo que seus passos, mais uma vez, têm a decisão de quem não quer conversa, nem boas tardes, nem como vai?, a distância dos ares de simpatia que sempre tento encenar. Cruza, rompe, quase tropeça na timidez, na pedra, na urgência de encontrar o coleguinha de aula mãos dadas com o pai. Mas ela nos ultrapassa, não se despede, alcança o pátio (é um bom lugar para escapar). Ainda se vira uma vez: o olhar é um oi.... o resto é silêncio.
Busco em meu filho alguma marca de reação, mas ele parece ter esquecido a passagem da colega que sempre nos encontra e nunca nos cumprimenta. Insisto no olhar: os adultos são mesmo insistentes em suas incompreensões.
Sem pressa, como se a tarde fosse espessa, sinuosa (pedrinhas para se chutar no meio do caminho), interrompida, aqui e ali, por esses instintos primitivos de antipatia, então ele sacode os ombros, dobra as sobrancelhas e me diz:
– É a Vanessa, pai. Ela é assim.
Fácil entender. Para as crianças o mundo é bem mais fácil de entender.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Era apenas uma letra esse

RELATO

Na conclusão de meu curso de Pós Graduação em Assessoria Linguística, o maior mico de que se tem notícia.
Fui entregar a dissertação de conclusão de curso – chamam a peça de "parecer" – e depois de fazer mais de trezentos e vinte e dez mil revisões, cada vez que eu olhava achava um erro, minúsculo, mas erro; cada vez que consertava e imprimia achava outro, e aquela coisa já estava ficando psicótica, não tinha mais fim, era noite e dia, imprime e corrige, confere e reimprime, descabela e acelera, volta de novo, relê, relê tudo de novo, embaralha, já não há café nem muito menos fé que chegue que baste, que rompa; eu já estava ficando meio louco com aquelas módicas 43 páginas (incluído aí capa, barba, cabelo, bigode e toda sorte de anexo e penduricalho), eu pensando: "se eu entregar isso aqui com algum erro não serei um revisor"; duvidando: "como poderei trabalhar com revisão se entregar isso assim", eu pensando igual aquele personagem dos cartoons do meu passado, perdido nos anos 70, a hiena que dizia "oh céus, oh vida, oh azar", agora beirando a porta do Pós-Graduação, ao meu lado, quando entro na sala da secretaria.
Plaft.
O barulho dos dois maços encadernados quase matam de susto a garota da secretaria do Pós, a pessoa responsável por receber as angústias e os trabalhos dos acadêmicos. Tal era o silêncio da Universidade às 9h55min da manhã que ela pulou de susto.
Entreguei. Tão feliz, serelepe, missão cumprida, saí dali voando pelos poucos quilômetros da Avenida Orfanatrófio, aquela descida sem fim em direção ao centro da cidade, seguindo pela borda do rio, a paisagem estava azul e compensou as duas últimas semanas de escrita e reescrita, o trajeto acalmando a minha ansiedade de quem entrega a vida em pouco menos de 50 folhas. Foram alguns poucos minutos de desaceleração, dentro do carro, mãos calmas e cansadas ao volante, segui pelas encostas da cidade, o contorno do rio, a beleza desse lado da cidade, e eis então que já estou sentado no conforto de minha sala de trabalho quando toca o telefone:
"Edgar, o título do trabalho que tu revisou tem 'contrutor'?"
"Como é que é?"
"Está escrito ‘contrutor’ na capa, será que era para ficar assim? Às vezes o nome tem que ficar errado mesmo."
Duas horas depois estou eu de volta ao Alto Teresópolis, material todo impresso, duas vias, tudo encadernado, a cola quente da encadernação esquentando as minhas mãos nesses dia claro e frio, a segunda encadernação, desnecessária, ali custando o dobro, esvaziando o meu bolso, eu já estava novamente dentro do elevador, protegendo a relíquia, as páginas da minha formação acadêmica, tudo certo, agora tudo certo e acertado, tudo de novo, só que agora eu chego devagar, apanho a versão "errada", deposito a nova, digo um "Obrigado" e "Até breve", esperando que nada seja tão breve entre o ato da entrega e a entrega do ato, então aperto o botão da angústia (ou do alívio), o elevador chega, desço, caminho, aqui estou.
Tudo isso só por causa de uma maldita letra esse, umazinha, e foi o que bastou: não era "contutor" mas "construtor", e quase que eu estava apresentando o meu trabalho final de revisão sem revisão.
Maior mico.
Serei um revisor?

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Sala vazia

As crianças brincam na sala
O tempo passa
As crianças crescem, depois partem
Fico sentado
Na sala vazia, o tempo amassa

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Vícios

Em linha reta, são pouco mais de dez passos. Nem mais, nem menos. O tempo necessário para preparar o encontro de todas as manhãs. Dentro de poucos segundos ele estará mais uma vez diante dela, e os dois cruzarão incertos por olhares ocasionais (são duas pessoas que caminham pelas ruas desse balneário – e nada mais). Ele estará envolvido em sua estratégia antiga, preso à leitura de um livro, e hoje para impressionar traz preso às mãos o Romanceiro da Inconfidência; ela, seja quem for ela, estará sob qualquer estado de beleza aromático. Dele pode-se dizer que o hábito adquirido de ler caminhando hoje chama mais a atenção do que o seu jeito clandestino de olhar por baixo do boné, de cheirar os pontos austrais que realmente ele não conhece, desconfia. E vai pensar mais uma vez que quem não vê os olhos, as pernas sente. Ele voltará para casa e não terá com quem comentar o seu vício.
O seu vício é ter uma vida sem vícios.
Caminhar lendo. Observar a raridade dos perfumes. Simular situações. E quem sabe outras possibilidades...
Primeiro ele tem que chegar em casa.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

O queijo e seus derivados afetivos

CRÔNICAS A MEU FILHO

Estamos no café da manhã mais demorado da semana. No arrastar de um domingo sonolento, a hora do café se estende, e ficamos um tempo sentados entre afeto, xícaras e talheres. Esse é também o momento em que surgem os assuntos mais sérios entre um pai e seu filho: a esculhambação. Sei que não é muito correto incentivar a bagunça à mesa durante as refeições, mas se não fosse assim, eu agora me pergunto, que assunto eu teria para essas crônicas que deixo ao meu filho de sete anos? Viva a esculhambação!
Sempre aos domingos. Conhecido aqui em casa como o Dia do Queijo. Sempre temos um pedaço de queijo colonial sobre a mesa, seja trazido pelo avô, seja comprado no Mercado Público da cidade. Domingo é o dia dos trabalhos artísticos, das variações poéticas e das bobagens ditas entre uma e outra mordida de queijo; afinal, durante a semana tudo é tão corrido... A rotina é tomar o café, fazer o sanduíche e sair correndo em direção à primeira atividade do dia. As variações artísticas em torno do queijo, entre o pai bobalhão e seu filho encantado, ficam guardadas para o domingo. O dia da criatividade. Está claro que este não é um assunto que interesse a humanidade como um todo, mas o tema é capaz de provocar gotas preciosas de humor àquela que nos acompanha à mesa: a mãe do meu filho. No dia do descanso, o queijo vira o centro das palhaçadas e das pequenas repressões, diluídas na quietude de uma manhã lenta. Nada melhor, nessas horas, do que abandonar o empapado dos pijamas e lembrar a velha parábola sobre o queijo e a lógica. Viro-me para meu filho, forço um olhar sério e começo:
– Sabia que quanto mais queijo menos queijo?
Nos domingos é assim: as besteiras têm que ter um cunho científico.
– Mas como assim, pai?
Então eu preparo o suspense. Os dois me olham, sentados à minha frente, como se ainda estivessem dormindo acordados. Com uma leve batida na mesa, continuo:
– Meu filho, alguns queijos franceses têm tanto buraco e os buracos são tão grandes, mas tão grandes, que quanto mais queijo, mais buraco; e quanto mais buraco, menos queijo; logo, quanto mais queijo, menos queijo.
Ele me olha, torce o beiço, faz uma cara de deixa pra lá:
– Tá, pai, então corta mais uma fatia do queijo do vovô. E não corta tão fina como da outra vez.
Ao deslizar a faca sobre a superfície de nossa felicidade, fico um instante a pensar no queijo e seus derivados afetivos.

Segunda-feira, Março 30, 2009

A sonoplastia da jogada erguida

CRÔNICA ESPORTIVA DA SEMANA

É papel da crônica esportiva especializada informar o torcedor. Sabemos, porém, que nem tudo que acontece em campo vira informação. Muitos pequenos eventos passam longe das páginas de jornais, do replay da tevê e das crônicas de rádio. Muita coisa passa em branco, mesmo que seja sonora, barulhenta, ou para entrarmos no assunto de hoje, possui sonoplastia própria. Evidente que não me refiro às tecnologias de captação de áudio, tão comum nos esportes (e me vem à lembrança o tênis com seus jogadores solitários a gritar...). Falo aqui do gritos que ninguém escuta, excluídos, por certo, os xingamentos aos parentes mais próximos do árbitro. Falo do futebol amador, onde não há ninguém apitando, onde o único solitário é o goleiro, onde a integração coletiva é de uma polifonia que muito me lembra agora os esquemas narrativos de William Faulkner e seus múltiplos narradores. Enquanto agonizo é um bom exemplo disso, tanto na obra do norte-americano com no sofrimento em campo. O jogo é uma sequência de agonizamentos. O jogo é gritado.
O jogo do último sábado. Novamente lá estavam reunidos nove (número cabalístico), os Sentinelas, os homens de confiança escolhidos pelo nosso Alto Comitê Executivo de Organização do Futebol dos Sábados (ACEOFUS), braço direito e não-armado da COFLOB – Confraria Futebolístico Literária Olavo Bilac, organismo que em comum com o seu honoris founder tem apenas o parnasianismo do futebol. Foram esses nove heróis que deram continuidade ao ano de esquisitices futebolísticas da Coflob ora iniciado. E para surpresa geral da nação, fizeram um jogo muito bom de ser jogado. E gritado. Além de pegado, o jogo foi recheado de Som e Fúria (outro livro de Faulker que eu recomendo, porque entre os narradores há um débil mental). Aliás chamou a atenção no jogo de sábado não a capacidade mental de alguns, mas a vontade de gritar. Faulkner é mais real que o jogo que vimos. Isso enquanto agonizo.
Claro, existe uma explicação para tanto grito. Alguns, porque querem provocar os outros. Outros porque querem ser provocados para se sentirem mais motivados. Os primeiros são os corneteiros de sempre; o segundo grupo é liderado pelo goleiro-falante, mais conhecido como Marreco-caneleiro das Traves, porque está sempre a berrar. Existe, porém, alguns atletas que exigem trilha sonora de primeira. Dolby stereo. Gritos e Sussuros sem intervalo comercial. E feito um drama bergmanniano, um autêntico jogo de xadrez emocional, alguns jogadores da Coflob gostam de demarcar bem suas jogadas aos gritos. Seja exigindo faltas imaginárias, sejam orientando o bom posicionamento da pátria, seja simplesmente narrando o que acontece em campo (o Louco de Cati das traves) , ou finalmente seja garantindo a perfeita sonoplastia da jogada perdida. Foi o que aconteceu aos não-sei-quantos minutos da fase final, quando o artilheiro Asterix (se bem que poderia ser o vizinho, o gordo comilão aquele) avançou e da intermediária desferiu um golpe na bola (alguns não chutem, desferem golpes) arremessou a belezura para os quintos da linha de fundo, chutando a bola não em direção ao gol, mais em direção à bandeirinha de escanteio. O chute foi acompanhado de um medieval grito pré-histórico, e se confundo as fases históricas é justamente para mostrar o desarrazoado de algo tão injustificado, pois foi só um chute para longe do gol... Foi um grito erguido das profundezas da alma, de uma forma tão prehistoricamente gritado, como se fosse aquele chute tivesse se perdido na Idade das Trevas.
Realmente, o jogo é assustador.

Porto Alegre, 30 de março de 2009.

Quarta-feira, Março 25, 2009

Um segundo

Foi somente quando ela diminuiu as luzes, acomodou suas partes no prumo dos lençóis, olhou-me com sensualidade adquirida a poucos contos e reunida na enérgica curiosidade dos que se conhecem na esquina de trás (e que nunca irão se conhecer) que ela veio em movimentos lentos, veio se rindo toda por dentro e por um rastro de segundo foi me perguntando Quer dizer que você gosta de gordinhas? foi só então que eu percebi o engano de aparentar compreensão.
Olhei as notas. O meu senso prático e organizado em exposição permanente. Empilhadas, eram duas notas graúdas e dispostas na cabeceira da cama que eu avistava atrás de seus ombros paquidérmicos. O tempo, eu tinha pouco tempo. O teatro, pouco sabia.
Foi um segundo rápido a percorrer galerias, incitar muitas perguntas e outras tantas dúvidas, e poucas culpas, tudo solto em minha cabeça, tudo rodando dentro de um rosto que espera, o olhar preso na parede e na resposta deste que olha e não vê, deste que vê e tem a sensação de que está sozinho e de que nada havia naquele quarto além das promessas pagas em duas notas.
Elas me foram suficientes.

Sexta-feira, Março 13, 2009

Rio Soturno

Parou a camionete, o motor enfim entregue ao silêncio da natureza. Olhou para o lado. O vidro sujo, os restos da estrada e o barro atirado pela rodas do estradeiro, do velho Jeep em que estava assentado com seus pensamentos, tudo isso dificultava a visão do rio. Mas ele estava ali, próximo, correndo, silencioso, rasteiro, guardando algum mistério. Talvez escondesse algo que Luís, o motorista ali parado, não conseguisse ver, mas intuía. Seu espírito aventureiro, tão elogiado dias atrás pela diretoria do Clube dos Jipeiros, estava, afinal, prestes a descobrir porque o Rio Soturno levava aquele nome. Era uma descoberta, e era preciso uma descoberta para ganhar o cobiçado certificado de aventureiro do clube. Faltava um único ato, identificar e informar ao mundo que um lugar inóspito e não explorado fora descoberto. A paisagem, contudo, transmitia calma; a noite caminhava no céu áspero e os últimos restos de vermelho refletiam nas águas escuras do Soturno. E mais uma vez Luís pensou na inferioridade de ser um jipeiro há tanto tempo e há tanto tempo ainda não ter descoberto nada.
O rio, calmo, escondia em uma de suas curvas, lá adiante, um pequeno casebre, àquela hora ainda às escuras. Sentado na frente da varanda da pequena casa, podia-se ver, mesmo de longe, um homem. Era a oportunidade.
Ligou o carro, e o ronco do motor espantou o silêncio e toda a vida ao redor. A revoada não distraiu o jipeiro. Lento, ele foi movimentando aquela estrutura metálica e fortificada, não demorou para encostar ao portão da casa. Tudo ali era de uma decadência assustadora. A chegada da noite não apenas acentuava as cores pálidas do cenário como escondia o rosto do velho homem sentado no vazio de um banco. Diante das águas do Soturno, fixo, ele olhava.
As boas-noites foram lentas, e as palavras seguintes, sobre o tempo, o fim da tarde, a noite, resumiram-se quase que tão-somente às perguntas de Luís e ao sim, ah-rã, talvez do velho senhor. No momento certo, angustiado pela chegada da noite e pelos monossílabos do outro, Luís precipitou a pergunta.
Um raio cortou o céu no mesmo instante. Resposta não houve. A chuva caminhava. E no minuto seguinte, mesmo que os minutos fossem dias naquele sopé de mundo, o homem sentado levantou-se, apanhou o que parecia ser uma mala ou valise, cruzou pela ansiedade de Luís e pelos faróis acessos do Jipe, cortou a estrada, e num vão da mata, entrou rio adentro.
O farol da direita piscou; era bem possível que a lâmpada, entregue aos dias de procura, queimasse antes de retornar à cidade. A estrada era longa, sinuosa e o silêncio escuro do Rio Soturno acompanharia Luís e suas perguntas.

Segunda-feira, Março 02, 2009

Hei de te esquecer

(Hoje)
Hoje, passeando por paisagens conhecidas, antes navegadas, correndo meus dedos na impaciência do brilho falso de nossa mesa de reuniões, eram os meus olhos que mergulhavam na memória de outros passeios, estes pretéritos, recolhidos e perfeitos, atrás, meses de procura, de encontros em ambientes fechados e agora esse circuito compacto de olhares alheios a nos vigiarem, é ali que meus dedos escorregam pelo declive de sua geografia repisada, memória estacionada, balanço de outras passagens, desafios, abraços, tropeços, afetos, tudo recolhido à minha frente nesse estreito limite de indecência e territorialidade, separados que estamos pelo tampo de vidro e dois assentos, neste instante então em que me vejo pasmo com a visão opaca do brilho morto dos cabelos dela, ao mesmo tempo em que me lembro da conveniência de ter dito não, outro dia, meses atrás, em outro lugar, quando finalmente me decidi e levantei e abri a porta e fui dizendo tchau, enquanto apalpava a lâmina fria que carregava no bolso, pronta como estava para ser usada em nosso último encontro, formalidade que cruza como um risco a fórmica desta mesa, pula da memória, cai desse passeio para territórios vizinhos, nos domínios dela, outrora meus, essa lembrança perturba o meu entendimento e não ouço nada ao meu redor, pois a dor na mente é como o toque da lâmina na mão que apalpava, minutos antes, o seu ventre improdutivo de mulher deitada, à espera, enquanto a esperam, então eu disse não e ela ficou deitada, a imagem de uma morte sem brilho deixada naquele quarto de hotel, agora ressurge à minha frente, mas é uma imagem sem vida, a lembrança de um reto equívoco, liso, escorregadio, porém passado e definitivo, pois apesar de seus olhos vagarem nas colinas do meu desconforto, este tormento me escapa, reflui, e consigo evitar seus olhos, evitamos, passeamos entre canetas e relatórios, olhares e desculpas jogadas na mesa, improváveis, impossibilidades ditas entre o desejo e a falta de coragem, a mesma de dizer não, e foi dito, e disse, e decidido levanto a mão e peço a palavra ao diretor.
(Eu hei de esquecê-la.)

Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

O novo recorde

Sentado na pequena mesa de seu conjugado, Carlos folheia com verdadeiro interesse a última edição do “Livro dos Recordes” que lhe chegou hoje. Com paciência de descobridor, ele vira cada página, e a cada página vê a infinidade de instâncias inúteis e inacabadas em que pode se transformar a vida de uma pessoa na busca de um novo recorde. Mas não liga, por um minuto ele esquece – já virou a página. Termina, olha a estante, admira sua coleção. Levanta e deposita o volume ao lado dos outros. No caminho, respira o pouco que resta do ar viciado do apartamento de solteiro, janelas fechadas, longe dos curiosos. Olha o livro mais uma vez e dá um suspiro: “O ser humano surpreende”, diz em voz alta para si mesmo; ele, o único morador desse pequeno apartamento de periferia, sala-quarto-cozinha; a essa hora, o único morador acordado num raio de dez blocos de apartamentos.
É nesse momento que perceber que já é a 54ª edição do famoso livro que adquire todo ano. E é quase um recorde. Todas as noites, antes de dormir, ele acaricia a sua coleção. Dormir ao som das explosões de novas marcas. Cada noite, uma noite.
Então ele apaga a luz, caminha os olhos pelas sombras do apartamento, entra no quarto, retira os sapatos (mas não a importância das coisas) e deita vestido. Longo tempo ainda espia a ponta da estante que enxerga ali do quarto. Fica imaginando o seu nome estampado na edição do ano que vem.
Acordado, ele sonha com o novo recorde.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Ponte

CRÔNICAS A MEU FILHO

No centro da sala, o menino está ao piano. É hora do ensaio. Entre a Ponte de Londres e a Canção dos meninos franceses ele desfila seus dedos pelo piano de 120 anos. Nem um pouco intimidado, ele dança sentado num sobe e desce que acompanha as melodias. As teclas são duras para um menino de sete anos, mas também são como a estrada que o guia nas suas primeiras improvisações. Ele inventa entre uma música e outra. De repente ele dá um salto, apanha a pasta da escola e puxa de lá uma partitura nova e inicia a canção dos Pequenos companheiros de jogo. Pode parecer que sim, mas ele não conhece essa partitura e mesmo assim parece um brinquedo. A estrada, antes uma linha reta sem obstáculos e com pequenas ondulações, agora aparece à sua frente cheia de buracos, exige paradas, e ele para; exige suspiros e bufadas, e ele bufa. A irritação dura pouco; ele vence essa etapa, avança um pouco mais, recua, para de novo. Árduo o aprendizado musical, mas parece estar mesmo com os companheiros de jogo, jogando. Até que enfim avança e chega à ponte. Eis o pequeno trecho da música que ele ainda não domina por completo e por isso não consegue passar; mas ele não desiste, é valente, deve estar suando, e daqui, sentado, posso ver como é estreita a passagem, ele consegue atravessar a linha imaginária de teclas – a sequencia que o fará concluir, nesta tarde, essa música.
Ele pula, olha para trás (como se estivesse sentado no carro, a imagem minúscula no espelho), olha e me diz que cruzou a ponte, que ela ficou para trás.
Ganhamos a tarde e mais uma música no repertório.