terça-feira, 8 de outubro de 2019

Elevadores


Tarde ensolarada lá fora. Aqui dentro, o relógio da parede e olhares superiores comandam o restante do tempo. De trabalho, de vida, a minha existência restrita nesta tarde a um punhado de relatórios produzidos ao longo da semana, mês de pagamento, desvio de finalidade, correções no realizável, tudo em minhas mãos. Então o sinal divino, e olho em meu computador e ao redor: todos os sistemas diretivos estão momentaneamente emperrados, é preciso suspender a parte essencial de minha atividade. Levanto e junto trago a inutilidade daquelas listas, tabelas, conferências; antes comunico aos próximos a minha súbita retirada. São exatamente três da tarde, e uma porção de pensamentos ruins levantam junto comigo no balanço da cadeira que fica. Deixo os emolumentos de lado, a pior parte do trabalho também. Entre os olhares dos colegas, parte deles estranha, alguns meio sorriso aliviado, a maioria, contudo, nem se movimenta. Ficam todos eles ali sentados diante da tela, mirando o vazio do cursor piscando a imaginar o que faremos com esse colega. Alguns me olham com ar confuso, e eu não consigo deixar de pensar nessa massa falida de idiotas. Eis a repartição.
Precisava respirar, ali, sufocado pelo ar pobre dos perfumes e os cigarros amarrotados em bolsos de camisas. Tudo isso existe, mesmo assim abafado. Alego algo preciso sobre alguma tarefa a fazer, entre certo e meio vago, abro com calma a porta principal, giro um tanto trapaceiro no próprio eixo; pelos ombros, olho ainda mais uma vez para meus colegas, deixo a sala da contabilidade e seus compromissos patrimoniais, não antes sem inventar algum tipo de desculpa, escusa acumula, sempre aquela reunião indigesta na sala do vigésimo segundo andar.
Eram esses os meus pensamentos quando, instantes depois, cheguei diante do elevador com um pedaço de papel vago e indefinido, mesmo assim ainda tive gana de pedir em voz alta o meu andar (nada acontece se você não aperta o botão). Ainda deu tempo de olhar o grande vão abaixo de mim, o espaço entre os dois lados do prédio, essas tecnologias vagas e salientes criadas por arquitetos para coisa nenhuma, estes profissionais não conseguem enxergar os números do custo envolvido, e muito menos a funcionalidade daquele espaço vazado que não seja atirar alguém dali de cima. Fiquei ainda um instante distraído em meus pensamentos até chegada silenciosa do elevador. A porta fechou; subimos. Dois andares acima ela entrou.
Tinha para lá de quatro anos que não nos víamos. Estava diferente, nada lembrando o último encontro frustrado, no dia em que na verdade nem a vi. Sua presença monumental naquele ambiente fechado do elevador, o giro estonteante e efuso de seus cabelos, o perfume velho conhecido (usado só nos encontros), por isso resolvi mudar os planos na hora, decidi por desembarcar no pavimento seguinte. Voei com as mãos para mudar a marcação do andar no aparelho; ela ainda não tinha marcado nada. Movemos juntos os braços, os pulsos, a mão, no dedo toda a tensão, covardia correspondida em números. Quando nossas mãos se tocaram e dedos, solidários, colidiram nos botões daquele aparelho foi que ouvi o barulho e reparei no molho de chaves que ela carregava na outra mão. Eram muitas.
Não estraga o painel do carro?
Ela ficou desconcertada, em seguida respondeu:
E daí? Aqui eu tenho até a chave do carro do meu marido.
Eu olhando a irreverência disforme do molho de chaves, o balanço das importâncias sugeridas, imaginando portas, quartos, locais discretos, afastados, quarenta minutos de carro, a cadência de seus movimentos, aqueles dias, tardes perdidas, a inutilidade da cobrança, a baixa produtividade na volta, e por um luxo do destino, ou falha estrutural desse prédios altos e infinitos, as geringonças a atravancar o nosso futuro, ocorreu que ninguém ainda marcou seu anda, e eu ainda tive tempo de simular novos encontros, outras cores, oportunidades, e tudo se abre quando em meio sorriso caindo a falso nela, a porta se abriu, escuto a sirene do aparelho se manifestar – plim!
A campainha toca, sei, agora não tenho mais dúvida: ela desce primeiro.

Outubro de 2019.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O prego


Sentado na grande mesa das decisões, um juiz tem diante de si partes e seus auxiliares; tudo pronto para começar a audiência, o mundo em suas mãos. Um carpinteiro diante da obra. Antes de iniciar, vem a ideia, e ele então começa a procurar algo, um papel, ofício, algum tipo de encaminhamento dos recursos humanos, mas seu pensamento está longe, preso a um ponto determinado da sala, e tudo aquilo é um ensaio. Todos aguardam – é só ele quem pode começar. Então ainda outra vez esse juiz olha na direção da parede, há um ponto fixo, preto, suposto seja uma simples sujeira, mas não há dúvida, é apenas um estúpido artefato pregado no alto, no ponto central de tudo. O prego. Aquele objeto devora sua iniciativa, e o juiz, prostrado, se perde olhando para tão minúscula referência. Os presentes tentam imaginar qual será sua próxima ação, mas ato contínuo, eles percebem que o tempo passou, o horário chegou e o juiz nada. Os presentes olham em sua direção tentando imaginar no que diabos ele está pensando naquele momento. O advogado, serviçal, toma a frente (eles se apanham a dianteira) e pergunta se ele está precisando de algo. Nenhuma resposta: o julgador continua olhando para o ponto fixo, feito dispositivo, sentença; ele disposto agora a tomar para si os autos e a responsabilidade pelo bom andamento da justiça, sim, não há dúvida, mas ele precisa decidir de uma vez por todas se manda o encarregado dos serviços gerais retirar o incômodo objeto cuja finalidade tornou-se nula, principalmente após ele mandar remover, dias atrás, o horrível quadro de 40 x 80 que a ex-mulher lhe dera anos atrás e do qual ele de fato e de direito nunca gostou; precisa decidir se chama alguém para retirar o inútil suporte da parede ou se devolve o quadro para a mãe de seus filhos; se aproveita, enfim, esse intervalo entre as duas audiências, esquece o telefonema raivoso dela no início da tarde e resolver chamar de uma vez a nova secretária, recém-indicada pelo gabinete do desembargador. Bem mais nova que a última, isto ele sabe, o desembargador assegurou. A última: essa não. Dona Jurema não serve mais; ela é amiga de Márcia, e a ex-esposa tinha aquele costume de ficar conversando muito tempo com a secretária – sobretudo sobre a vida social e as crises do casal. Inadequada para o caso. Ao lembrar disso, o magistrado se remexe mais uma vez na poltrona, sente que precisa retomar o controle de sua vida. À sua frente, contudo, estão eles, entes amarelados pela luz da sala de audiência. Encara a banca: o advogado contratado parece implorar o início da audiência; o representante do Ministério Público ali empostado, mudo, sorri em sua eterna postura de serviçal do Judiciário (tem dado provas disso nas últimas mensagens); toma um susto apenas quando olha na direção do réu. Nada simpático aquele sujeito, parecer ter um ódio registrado no fundo da alma, um rancor antigo, cheio de fome. A tensão percorre cadeiras, o tempo extrapola agendas, e há uma dinâmica própria nos olhares ao redor da mesa, todos se voltam para o grande relógio preso ao lado do crucifixo da sala. Há certo incômodo nessa espera – e o que dizem as mãos que batem seus dedos sobre o tampo da mesa de audiências. De todo modo, estão todos cientes do poder decisivo do magistrado nessas horas e aguardam. Observam, mas o juiz não se mexe: sentado, imóvel em sua cadeira, ele pensa na urgência daquele serviço, o prego fixado no alto da parede, alguma coisa pendurada em sua vida. Tantos requerimentos a decidir nesta tarde de pedidos, apartes e sustentações orais, e ele ali, pendurado no esquecimento daquele prego que não, não serve mais. Então ele dá um murro na mesa e chama as partes: ainda meio perplexos com a violência da hora, eles se mexem, todos se aprumam, a audiência começa.
Julho de 2019.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

A arte de encerrar uma discussão


Primeiro comece a discussão.

Depois, sem motivo aparente, encerre-a.

Em algum momento você sentirá prazer.




Maio de 2019.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Wyborowa


  Deus é de fato injusto, penso nisto enquanto acaricio a garrafa de Wiborowa gelada no fundo do freezer. Fosse ele justo – esperança – não faria uma coisa dessas: a garrafa quase vazia. E eu ajoelhado.

Acaricio o receptáculo de volume morto, feito imagem, e estou aqui a pensar no que me levou a chegar a este ponto: a garrafa quase vazia.
Penso nisso enquanto os joelhos doem, afinal o pequeno refrigerador (este santuário) está localizado no piso mais baixo desta sala da contabilidade onde me encontro.
Estou longe; estou num hospital.
Lembro.
Do hospital a me percorrer lembranças, aqueles instantes sob o domínio dos aparelhos, recortes feitos estes pelos médicos, eles a encontrarem aqui e ali, como depreciação acumulada, pequenos objetos numa faixa extrema, incrustados neste órgão chamado fígado.
Imagino o órgão, frio, quente, vazio, sobrecarregado. E enquanto a minha mão revira a garrafa no fundo do compartimento gelado, imagino o que seria dos outros, não os órgãos, mas corpos frios, inexistentes, matéria descontinuada, que eu acompanhei deitados.
Estamos todos mortos.
Eles me lembram agora a oração contábil que fiz instantes atrás, buscando diferenças e arriscando pensar no tempo que ainda me resta, este bem de consumo próprio e sem vida útil. Quinze minutos, duas horas? Daqui a pouco são quase dez horas da noite, e eu aqui, na sala da contabilidade, com o braço dentro do freezer do pequeno congelador em cujo interior onde é possível encontrar a garrafa vazia de vodca e nenhuma esperança.
Deus não existe.
Deus – este nome proclamado por eles.
Penso neles, nos que foram: a mão gelada, a dor profunda, os pensamentos embaralhando números e emoções, e já não há mais nenhum órgão a gelar.
Estão todos gelados.
Eis meu estado de insanidade crescente que se revela quando penso na diferença do balanço da coligada e no conteúdo do vasilhame (é provável que não dê nem para as próximas duas horas – quiça amanhã).
Amanhã é sábado, e eu não sei o que fazer com o dia longo de um sábado.
Fevereiro de 2019.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Treino fônico


            A invenção das palavras. Estas que estou a pensar enquanto caminho em direção à sede de minha academia. Não, não sou a proprietária, apenas mais uma aluna em busca da forma física perfeita. Meu ramo de atividade é outro e me obriga; ninguém na sala de musculação seria capaz de entender o que faço. E o que exatamente eu faço da vida? Cedo para dizer. Do meu sonho, sim, posso falar: cantora lírica. Por isso sigo nos exercícios vocais, fico repetindo letras, palavras, sons; associando ideias, formando palavras, pronunciando em voz alta (mesmo que esteja na rua); o som, esta conversa comigo mesma, sim, agradável dizer uma palavra qualquer. Por exemplo:
            Treinofônico.
            Tal ideia, pensamento, me veio outro dia em plena aula, no grande salão, em meio a supinos e resguardo de forças, não é bom exagerar antes do fim do dia: o cansaço pode me custar caro. A ideia tive durante os exercícios com o meu personal trainer. Estávamos naquela socialização típica das academias, onde a trivialidade dos assuntos deixa todos cheios de palavras, comentários, anotações inúteis. Seis meses, o pacote quase fechando, hora de renovar, e ele, o professor, ainda tentando saber o que eu faço na vida. Por que o interesse? Curiosidade ou mera rotina formal daquela profissão em que muitas vezes interessa mais as páginas sociais da vida do que a correção do exercício? Esses sujeitos precisam ter assunto sempre e a todo custo?
            Odeio “ter assunto”. No meu trabalho prefiro fazer as coisas do meu jeito: em absoluto silêncio. Afinal, qual a necessidade de palavras na minha atividade, se os homens nem escutam mesmo? O que eles querem são gemidos – e isso não é nenhum tipo de qualidade lírica. O meu sonho morre no suor daquele espaço entre quatro paredes, hotéis escolhidos ora pelo preço, ora pela localização, e o que interessa para o cliente mesmo são os movimentos repetitivos – nem sempre precisam ser criativos – e ali os corpos não se falam. Ninguém me paga para falar. No Liberdade, não há liberdade para esses devaneios narrativos. O animal dos motéis não me permite.
            Na academia é diferente: lá posso falar sobre o último corte de meu cabelo, sobre as promoções da liquidação no shopping e até sobre os pequenos dramas renais de minha cachorrinha, Lory Lamby.
            Lá o treino é sempre fônico, e é preciso ter criatividade para não se dizer quem é.

Janeiro de 2019.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O homem do banco (sentado no muro)


            Na calmaria desta meia-tarde de quase-verão, mexo os talheres da sobremesa e sorvo os últimos instantes do meu café. Sei. São quase três horas da tarde e daqui a pouco alguém me cutuca para lembrar que está na hora de o restaurante fechar. Sempre assim. Desde minha precoce aposentadoria, depois que os filhos foram embora e também ela não achou nenhum motivo para dividir a casa e tudo-lá-que-seja comigo. Restou as memórias do banco, chefia, fluxo cambial, contratos fechados no temor das últimas horas, o grande stress de fim de ano. Agora aqui: no último almoço do ano, faço o balanço do diferido.
            Alguém realmente me chama:
            – Três horas, Doutor Vicente. Vamos fechar.
            Fico me enrolando com as últimas réstias de café, a pequena torta antes consumida, o almoço já ficara horas para atrás, ninguém entrando nem saindo, o mesmo anticlimax dos dias: sozinho, sentado na mesa (a mesma de sempre), observo o movimento de saída dos últimos clientes. Sigo na linha morna dos acontecimentos que preenchem a minha vida de aposentado bem sucedido, e por isso relaxo na cadeira, descanso as mãos sobre a elegância dessa toalha de mesa, afasto a xícara, remexo nos talheres e finalmente chamo o meu garçom, por acaso o último a espanar as mesas já desocupadas deste restaurante nobre da Zona Sul de Porto Alegre.
            Tarde parada entre feriados. Somos poucos no restaurante a essa hora, mas não posso deixar de notar que o único parceiro de contato visual neste cenário descampado ainda continua ali, sentado, o olhar crispado para mim: ele, o homem do banco. O segurança que fica na entrada  desse bistrô abrindo e fechando a porta para os clientes e frequentadores. Eu não me encaixo em nenhuma das duas categorias: sou como os móveis e utensílios da casa, um pouco invisível em meus pedidos, pouco originais e quase sempre repetitivos. De onde estou, observo-o; mas confesso que conversamos pouco, um escapada de olhar na chegada, bom dia, educação e nada mais. Há verdadeiramente um muro entre nós, e são poucas as vezes nesses anos em que ele se aproximou da bancada que divide o hall de entrada das primeiras mesas do lado oeste, próximo à saída, onde estrategicamente me sento. Dali observo tudo – e é impossível não deixar de notar o muro que nos divide.
            De certa forma invejo o homem do banco, sentado como está desde às 11 da manhã. Também reparo como ele costuma ficar observando, canto de olho, as beldades deste bairro ao longo da hora do almoço, e elas entram e saem, minuto a minuto, a desfilar suas belezas, cheiros e formas. Ficando longe, mas logo tão perto, quieto, deixo-me a pensar na sorte daquele sujeito rude (sua simpatia tem hora marcada), mas não invejo sua posição neste tabuleiro de vaidades senão a condição privilegiada que dispõe de poder enxergar paisagem por entre coques, vestidos e disposições musculares. Lembro: estamos chegando ao alto verão das liberdades individuais reprimidas.
            O muro, contudo, nos separa. E fico a imaginar que enquanto ele provavelmente chegará em casa com seu cansaço e pouca disposição, à mesa das oito da noite encontrará o jantar feito, depois novela a dois e por fim os romances escusos debaixo do lençol. A pensar ele, quem sabe, nas longas clavículas, trocadilhos de pernas torneadas, desafios esculturais localizados naquelas moça a entrar e sair deste restaurante / café / bistrô em rua apertada do Bairro Tristeza. Enquanto do outro lado do muro fico a imaginar o destino de tantas visualizações não compartilhadas que a mim não mo são permitidas, e digo logo que não são por falso pudor ou romances tresnoitados, mas por pura falta de opção com quem dividir tamanha tara acumulada.
            Sentado no muro, aquele segurança percorre agora os olhos pelos salões vazios, consulta seu relógio barato e finalmente me olha pela segunda e última vez, desde que cheguei. É a sua senha para indicar que a minha permanência por ali se esgotou; devo então levantar, e depois meia dúzia de passos, pagar a minha conta. Na saída, é muito difícil que eu venha olhar para ele, afinal neste derradeiro trajeto prefiro a secura de sorriso frio, talvez um breve aceno, erguer o braço, apenas um movimento impessoal, retórico, balançando o ar lá fora, como se fosse uma contrariedade, com certeza um adeus ao prédio do restaurante, não a ninguém em específico. Jamais faria isso. Afinal, há o muro.
          O muro e foda-se.

Dezembro de 2018.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

24 Horas



            Na recepção do hotel em que a instituição supostamente me colocou num quarto, tenho a notícia e – vejo – ela não é boa:
            – Não há reserva em seu nome, me diz o repetitivo sujeito da recepção.
            Olho o pulso: meia-noite.
            Penso no paradoxo da situação, neste lugar onde estou – e sem hotel. Brasília, Distrito Federal, capital do absurdo nacional, setor letra tal, quadra número não sei, lote a ser localizado e me pergunto: onde encontro um hotel neste emaranhado de letra, siglas e números? Há sempre o perigo de você cair ao lado do quarto de alguém inimigo público número um envolvido em corrupção. Aqui é Brasília, e aqui não se brinca.
            Começavam ali as horas da minha procura. Ainda na recepção, esperei a distração do atendente e, sorrateiro, deixei a minha mala numa sala lateral e saí correndo. Corrido. Eu queria encontrar logo uma casa de repouso, pousada, estalagem, qualquer algum lugar, tipo de acolhimento, conversa íntima, uisquizinho 12 anos. Tive que caminhar muito – era Brasília, esta bizarria nacional – e é óbvio que andei pelos círculos imaginários de Niemeyer – a cidade não foi feita para pessoas – e me perdi profundamente.
            Foi a luz vermelha lá adiante que me salvou.
            A porta. O silêncio vinha de dentro. Bati. Demoraram a atender. Finalmente um indivíduo pesado e sonolento abriu para mim meia porta. Perguntei sobre a placa acessa 24 HORAS que havia na frente e pedi pouso. O sujeito ficou me observando um longo tempo, e, na maior lentidão, olhou para os lados e então me perguntou pelo carro, o pneu, e finalmente rosnou meio abafado: “Qual é o problema do cidadão?”, e ato contínuo foi empurrando a porta para fechar. Interrompi como pude – eu estava mesmo imprestável:
            – Tem quarto vago?
            Com o peso de seu braço forte, o sujeito abriu a pesada porta; dentro a penumbra de um grande quarto-conjugado, sei lá, foi me dando passagem e mostrou o grande sofá-cama vermelho-amotinado que ocupava inteiro uma parede lateral decadente – e foi assim que dormi quase um dia inteiro numa borracharia de alguma cidade satélite.

Novembro de 2018

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Fim de semana sem fim


Para Kika

Nunca gostei de quebrar ossos. Muito menos aos 80 anos. Esta foi a primeira vez que eu quebro um osso – e tinha que começar assim: do que jeito que eu não gosto: dependendo de todo mundo. Viver sozinho tem dessas desvantagens.
A parte boa de tudo? Lembro do atendimento de urgência, a chegada das enfermeiras, o passo-a-passo dos fisioterapeutas, a condição humilhante de prioritário, os dias internados sem visita, depois o acompanhamento em casa, mandaram até uma assistente social. Perguntas, inquéritos, recomendações. Essas pessoas todas entrando e saindo do meu minúsculo apartamento. Sempre alguém batia no meu ombro e perguntava: Pô, Vovô, não tem luz aqui nesse buraco?
Todos os dias aquelas pessoas me dando ordem, receitando algo, mexendo em pratos, panelas, geladeira, eu não tinha mais governo sobre a minha vida, sobre a minha casa. Os únicos que nunca apareceram por aqui foram os médicos; esses era preciso correr atrás. Consulta rápida. Sistema Único de Saúde. Muitos pacientes nos corredores. Calma, meu senhor, tem que esperar na fila. Os médicos alegando compromissos, pressa, correria; nunca conseguia ser atendido no tempo esperado, cirurgia, exames; nem podia explicar onde doía, bacia, perna, cabeça. Sobrava tempo. Antes, durante, depois. Ficava perambulando pelo hospital. Cadeira de rodas. Pra cá, pra lá. Eu tinha muito no que pensar, tempo morto, e o tempo por vezes passa a ser o senhor das horas vagas.
Agora estou aqui sentado no meio deste final de semana. Nesta sala, nesta poltrona, diante da tevê desligada. Nunca vem ninguém aqui nos finais de semana (o Posto de Saúde disse que não). Daí o tempo não passa, nem uma pessoa, palavra, reclamação; já nem consigo mais olhar as horas. Até o relógio da parede, tão imponente outrora vivo, agora quebrado, aquele órgão pendurado na parede, me parece inútil, porque eu não consigo dar corda e não estou esperando ninguém. O meu tempo se foi.
Nunca gostei de quebrar ossos. Agora eu sei.

Setembro de 2018.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Conferência


Estava o casal na sala de estar de sua residência no Boulevard Saint Germain discutindo o diagnóstico de cancro terminal do marido quando o telefone tocou. Era do colégio da filha. Comunicavam que a filha havia desaparecido. O pai baixa o aparelho no gancho e pergunta se deveriam ir até lá.
No colégio, estão na sala da diretora. Ela oferece café e croissant, fala sobre a linha de pobreza em Uganda “e na África” e acrescenta informações a respeito da campanha da Escola para o “Fundo das Ilusões Perdidas”; os pais nada comentam, nem acrescentam qualquer coisa a não ser a pergunta:
– A senhora nos chamou por que motivo mesmo?
Num impulso rápido a diretora levanta-se e pede para que a acompanhem.
Agora estão na sala de aula da filha; a professora está ao lado, mas é a diretora quem toma a iniciativa de começar a fazer a chamada. Quando chegam no nome da filha, uma garota nos seus doze anos levanta a mão; ninguém vê nada nem se mexe do lugar. A diretoria encerra a conferência, dirige um olhar de reprovação à professora, pergunta sobre o cuidado com a caixa de giz e em seguida sugere que os pais procurem a delegacia de polícia mais próxima. Apesar de trabalhar há vinte e cinco anos na Escola, ela não sabe onde fica a delegacia mais próxima.
Na delegacia, é o chefe de polícia quem recebe o distinto casal. Que pergunta se é conveniente a mocinha de vestido azul ficar junto; nenhum dos pais se manifesta. O delegado da chefatura logo pede a descrição da menina desaparecida, acrescentando, a seguir, se a menina aí ao lado poderia se aproximar de sua mesa. Passa então tomar as medidas da garota. Por fim, chama seu auxiliar e lhe alcança as informações sobre o perfil da desaparecida, cujo conteúdo havia anotado antes. O auxiliar do chefe de polícia pede licença para chamar o tenente, mas é o sargento de plantão que atende a seu pedido. Nunca sabe qual a diferença entre os dois, dados os cento e poucos quilos de cada um deles.
Os pais perguntam se aquele é o guarda que vai procurar a filha deles, o sargento Remi não gosta, é sempre ele que tem que voejar por aí atrás dos desaparecidos.
Antes de sair, o cabo de prontidão pergunta se pode levar a garotinha para ajudar a procurar a filha desaparecida. Ninguém presta atenção ao que o soldado raso diz. O chefe de polícia fala das maravilhas de sua nova lancha na Riviera; os pais, do preço alto da mensalidade da escola. Todos mexem a cabeça, concordando.
A filha é encontrada pelo Cabo Donizete, dois dias depois.
Agosto de 2018.

LEVEMENTE INSPIRADO  EM SEQUÊNCIA DO "FANTASMA DA LIBERDADE"

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O rapaz da limpeza


Tenho reparado naquele rapaz da limpeza, esse que vejo, de longe, sair de sua sala todas os dias e pontualmente às nove horas da manhã abre uma conversa animada com as senhoras que fazem a faxina no andar. Desconfio tanto da conversa como da limpeza (nosso andar anda muito sujo); fico impressionado mesmo como de sua disposição em falar tanto com aquelas trabalhadoras invisíveis que quase ninguém nota, ignora, nem cumprimenta ou parar para ver. Ele está ali, escorado no umbral da porta de seu departamento; gesticula e fala. Pouco ou quase nada consigo compreender do que ele diz, como ele fala porque sua voz é nasalada e me irrita; também me aborrece sua temática abusiva, a insinuar balançar nos gestos um falso brilho e interesse dos seres que sempre se colocam acima dos outros, fazendo isso com uma arte incomum a demonstrar um suposto sentimento de surpresa (e espanto) com a rotina, a vida sofrida e o sofrimento daquelas gentes úmidas. Tudo me parece molhado neste instante neste corredor fechado, lugar escuro e espantoso, e não, digo, não pelo o dia lá fora, assustadoramente frio, que estou a me lembrar dessa frieza comum de sentimentos, porque independente disso rumo em direção ao pequeno grupo formado na porta da sala, onde o rapaz da limpeza descasca seus falsos elogios – sei porque é ele mesmo que depois faz as queixas do trabalho delas à administração – então eu passo lento por entre os que se encontram parados e reparo na pequena arrogância do rapaz, a dizer, “eu também já limpei a sujeira dos outros”, o que me parece uma grande mentira. Eu sim, eu sinto minhas narinas eternamente embebidas em água sanitária, o tato e o olfato que perdi em baldes e baldes de limpeza e agora esse pequeno ser abominável quer tirar o meu lugar, desta maneira capa-gabardine-bem-intencionado que se mostra a elas muito bem-vestido (e sempre superior) quer porque quer se aproximar de forma muito rápida daqueles subalternos suburbanos, e vejo nisso um falso interesse, um elogio decadente e caindo aos pedaços de sua voz nasal e mambembe dele que fala – e sempre posto e parado no limite de sua sala, ele fala, sugere, e nisso se imiscui nos meandros do falatório geral das senhores, que riem e riem e riem. Quero muito dizer: “eu, sim, já trabalhei com isso”, mas a lembrança de meu passado não é algo que esta posição, terno, etiqueta, momento, memória, distância me permitam, então passo rápido em passos largos (mas sempre bem calculados para dar tempo de verem:) e nem olho, mas todos me olham, sigo adiante, rumo ao fim do corredor, banheiro, fuga, mas não vacilo; sigo em frente. Para mim, o passado é apenas um lugar no passado.

Julho de 2018.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Um passado militar asfaltado


DEPOIMENTO

Sou filho de caminhoneiro. Nunca tive muito orgulho da categoria – as matrizes reacionário-totalitáritas-machistas-armamentistas-sebastianistas (que pedem a volta do Rei D. Sebastião) são tão comum entre caminhoneiros como em qualquer bacharel diplomado de classe média branco cidadão do bem e de boa família que jogou as aulas de História recente do Brasil no ralo – a água junto com o bebê. Mas é bom ficar claro que nossa opção e dependência sobre rodas começou nos anos 1950 (indústria/montadoras automobilística), em governos proclamados social-democrata (JK) e se concluiu com as estradas (as BRs) da Ditadura Civil-Militar nos anos 1970. De lá também cresceram as eternas aposentadorias para filhas de militares, favores para os amigos, a grande farra dos bancos, juros altos, dívida externa, a exponencial das construtoras, os monopólios como o cimento, a televisão, a Rede Globo, o delírio chamado Transamazônica, crescimento do agronegócio, da tortura, as greves, a luta pela terra, o fim das ferrovias (a RFFSA viveu de 1957 a 1998), o grande crescimento das megatransportadoras (a Coral era um império na América Latina quando aos 10 anos eu viajava com o pai) o escândalo chamado Angra I, II, III, a indústria de armas, a inflação, a concentração de renda, a fome, a pobreza, a indústria da seca, o escândalo da mandioca, o crime organizado, o nascimento do PCC, a corrupção no futebol, CBD/CDF e se quisermos novamente lembrar os anos 1950 – aquela grande caixa preta ainda por ser aberta: o BNDES. Tudo isso fez de nosso país um achado de oligopólios, monopólios, lavagem de dinheiro, grupos mafiosos, justiceiros (recomendo o filme República dos Assassinos, sobre o Esquadrão da Morte) e entre todos esses privilegiados pelos governos militares estão os donos de transportadoras, como esse Dalçoquio aí que abomina professores e defende a volta da ditadura. Este não é um caminhoneiro e fez de você um refém de nosso passado militar asfaltado.

Maio de 2018.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Maria do Arco


No anoitecer destas palavras envelhecidas que lhe oferecço como paraísos artificiais – a tentativa de fazer a literatura parte de meu dia – encontro-a na rapidez do olhar dos que tem a urgência, de um texto, de um impacto:
Falo de obras.
Pedreiros.
Lucia Berlin
Materiais duvidosos.
Lavanderias
E penso no meu comportamento infantil diante deles.
Dela, esta mulher: Maria do Arco
E o meu coração em reforma.

Abril de 2018.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Alguém


Alguém da família Aristimunho, 27 anos, foi baleado na manhã de uma quinta-feira por um homem encapuzado em um lava-jato onde trabalhava na cidade de Dourados, estado do Mato Grosso do Sul. No momento dos disparos, ele comia uma bolo de mandioca, considerado uma especialidade das confeitarias da região. Morreu com as mãos secas e ocupadas.
A namorada da vítima registrou boletim de ocorrência logo após o fato e disse aos policiais que o autor do ataque é seu ex-namorado, alguém da família Oliveira, 29 anos. Eles não se viam fazia quatro anos, mas a garota declarou que ele já ameaçava matar seu atual namorado há muito tempo.
Ainda de acordo com o registro policial, o autor entrou no estabelecimento encapuzado com uma touca feita de saco de linhagem e com a arma na mão foi logo perguntado onde estava o outro alguém. Ele então foi até os fundos do lava-jato, onde o rapaz estava e disparou contra ele inúmeras vezes. Um dos tiros atingiu o peito da vítima, que foi socorrida e encaminhada para o hospital da cidade em estado grave. Pedaços do bolo ficaram partidos e espalhados pelo chão; o corpo, cheio de farelos.
O autor fugiu do local em um automóvel de grande porte e indefinida cor, naquele momento sendo conduzido por um comparsa de meia-idade, aproximadamente. O carro havia sido lavado pelo alguém morto horas antes do ocorrido. Testemunhas disseram terem visto o dono da padaria do bairro na direção do veículo. A polícia segue investigando o caso.
No dia seguinte, clientes e funcionários estranharam o fato de a principal padaria da cidade amanhecer fechada.


Fevereiro de 2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Gavetas

  O aviso era para não entrar. Dizia na porta, em placa cravada pelo tempo. Foi a curiosidade (ou alguma coisa que ele tinha que descobrir sobre o irmão) que fez com que entrasse no quarto, depois abrisse as amplas portas do roupeiro, algumas chaves arrombadas e contrapesos retirados, gavetas vasculhadas, potes, caixas, pó, extravio e lá dentro, no fundo do móvel e gasta pelo tempo, a coleção.
Por que o irmão fizera aquilo?
Primeiro aquela vida. Segredos. Anos e anos fumando. Tosse crônica. Complicações. Doença diagnosticada. Grave. No hospital, um pedacinho, fiapo, fim de vida. A família toda em estado de tensão permanente. Naquele que seria o penúltimo dia de internação, o irmão lhe chamou ao pé da cama, puxou-o com a força dos moribundos:
– Entra lá.
A voz rouca, profunda, água escura, difícil de enxergar, impossível escutá-lo; mesmo assim conseguiu compreender: eram as gavetas. A coleção. O segredo compartilhado.
Os dias curtos. Prognóstico negativo. Sequência de exames, resultados inúteis. Jamais conseguiu retornar ao hospital. Nunca pode dizer ao irmão que entrara lá, que folheara a coleção, a mesma, aquela, que utilizaram juntos, na flor da adolescência, agora bem longe, o tempo se reduzindo, o tempo encerrado, esta linha órfão, confissão, delírio ou memória?


Janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Serviço Essencial

     Bons foram os olhos dos cidadãos de Campo Largo quando num certo setembro do ano de 19... intalou-se em seu território a Família Ritos. Vieram ocupar um espaço ma cidade, preencher a falta de um serviço essencial; vieram e ficaram. Eram os melhores da região, e tal reconhecimento veio com o passar dos anos e a passagem por outras localidades pequenas. Os Ritos eram realmente bons no que faziam.
      Por longos e mais outros tantos anos a cidade não precisou se preocupar com seus mortos: estavam em boas mãos e pás. Todos eram gratos ao Ritos pelo serviço essencial que a família prestava ao munícipes; ninguém, contudo, mantinha sério ou longo relacionamento com o clã funerário.  Visitas, festas de aniversário, batismo ou casamento; shows ou paradas; desfiles ou exposições; em nenhuma atividade coletiva ou comunitária da cidade a presença de algum membro da família Ritos se fazia notar.
     Ninguém estranhou, portanto, no dia em que o primogênito, Flóscolo Ritos, anunciou a todos que a famlia já não residia mais por ali.
     - Estão noutra, resumiu sua resposta quando lhe perguntaram pelo paradeiro coletivo.
     Nenhuma notícia tiveram os moradores de Campo Largo até o dia que Flóscolo veio pela segunda vez a público, vinte anos depois, anunciar que não enterraria mais ninguém. E ainda dizer, em fala pausada e com todas as letras escabrosas, que todos já estavam ali com ele, enterrados em casa.
     Desde aquele dia, a pequena Campo Largo nunca mais assistiu a um enterro digno e decente. Nem ao de Flóscolo Ritos.

                                                                                     Janeiro de 2018.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O pequeno bunker

 Escuro, fechado. Três metros por quatro. Semelhante a um ambiente lacrado, de propósito. A inutilidade de uma única porta, trancada e sem trinco. De resto, há poucas informações ao redor, algo para se agarrar. Não fossem alguns ganchos e buracos espalhados, furos e pregos já carcomidos pelo tempo, seriam somente quatro paredes vazias. Quase nada indica que já tenham sido ocupadas um dia. A hipótese: talvez uma sala abandonada, um quarto desfeito, um escritório que nunca foi escritório. Quem pergunta é um homem de cerca de 60 anos – e ele está preso ali, no pequeno bunker.
Assim acredita esse velho homem – e suas ideias algum dia nazistas. Mas o que estaria ele fazendo ali, naquele quarto compacto e obscuro, sem chave ou janela, numa espera que não é mais de se esperar? E o que lembra? Quando foi mesmo que passou a morar ali? Quem o colocou naquele ambiente lacrado, apartado do resto do mundo? O que era seu mundo, mesmo?
Fecha os olhos, e a única lembrança vem de um certo cheiro que identifica. Tão longe, tanto tempo atrás. Seria das crianças, os gêmeos, chorando. Pequenos, ainda bebês, eles acordavam (sempre um acordava o outro) e choravam bastante pelo resto do escuro da noite, e assim fazendo acordavam a irmã mais velha. A menina nunca conseguia dormir direito.
Agora lembra o desconforto que era quando ela não dormia tudo que precisava; o choro dos irmãozinhos era aterrorizante. E ele chorava junto, um grito alto, mais alto, na garganta, até o fim da noite.
Esse senhor, hoje, nos seus tantos anos de vida, agora lembra, sim, do quarto que construíra para a filha. Ainda que ficasse dentro da casa, era isolado; absolutamente vedado, e sem a mínima possibilidade de se ouvir o berro estridente daqueles dois seres meninos. A chorarem. A acordá-la. Isso tudo vem à sua lembrança num flash sem luz. A filha perguntando: pai, por que eu tenho que dormir num quarto tão escuro? O medo da garota diante daquela escuridão. Depois no quarto, ela dormia, nunca acordava. O isolamento era bom, profundo. O pai, este senhor, hoje, preso no quarto, era quem respondia: é para os maninhos não te acordarem. E a partir de então os pais conseguiam dormir.

Um dia ele acordou, estava num quarto, e era bastante escuro; era noite durante o dia; o mesmo lugar onde está agora, a refletir, inquieto, o que foi que eu fiz com a minha filha? Depois silêncio, noite, enfim.


Novembro de 2017

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A espera

 Na antessala do bloco cirúrgico, um grupo de homens está sentado aguardando a chamada. Estão ali há poucos minutos, separados que foram pelo grau da enfermidade e urgência na internação.
Eles esperam.
Nada há nesta sala a não ser alguns assentos, velhas revistas e um repositório de quadros decadentes pendurados no espaço restrito em que se encontram aqueles quatro homens. E eles esperam.
O primeiro foi chamado, fez o sinal de algum credo ou religião e entrou. Essa foi a única vez que os outros repararam nele.
O homem sentado no lugar ao seu lado olha insistentemente para o relógio. De fato, não há nenhum relógio em seu pulso – apenas a pulseira do setor de triagem. Angustia qualquer um assistir àquela mecânica em busca das horas. Ele nem sabe (desconfia) que não vai precisar ter presa daqui por diante. Algo lhe diz que algo vai acontecer.
O terceiro homem está imóvel, posição altiva, espinha ereta, e tem no semblante um ar de concentração de alguém decidido. Foi ele mesmo quem sugeriu aquela correção, uma simples intervenção de rotina que deveria durar umas poucas horas, depois recuperação rápida, quarto privado, dois dias, casa. De nada desconfia (nem imagina) ele que sairá daquele lugar para outro bem diferente, liso e frio. Nem imagina a surpresa.
O último paciente nada falou; tampouco respondeu às perguntas mais triviais dos companheiros de sala. Traz consigo certa ansiedade no semblante e o desconforto diante da situação de vantagem. Sabe o prêmio que o espera. Tudo já foi previamente combinado. Mais uma vez ele está ali – é a quinta vez – na antessala de cirurgia. Logo alguém o levará para uma sala reservada, onde suas roupas o esperam; também o aguardam ali as garotas que o acompanharão naquela orgia médica. Ele sabe, aquilo é para poucos, é um clube fechado, e sempre dá certo.
Está pensando nesse no prazer desses encontros desviados quando, de forma surpreendente surge na porta outra médica, desconhecida, e ela entra na sala, forte e autoritária chama seu nome, anuncia o início do procedimento; ela pouco ou nada se sensibiliza com seus protestos, deve haver algum equívoco, e assim, mão firme em seu ombro, ela conduz o paciente ao bloco, em seguida já deitado, a equipe ao redor, pontas, agulhas, aventais, deve ser algum mal entendido, doutora, e logo ele já está sedado pela equipe. Pronto: segue para uma cirurgia que não faz a mínima ideia qual seja.
Este homem não precisa mais esperar: sua hora chegou.

Outubro de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Something in the past

 Nunca foi lugar para mim, devo confessar, eu, o Paulo Afonso dos jogos muito bem definidos (já recebi muita porrada na vida). Mesmo assim, assim como são os homens que se dedicam a desafiar a vida:
Acelera tanto assim não benzinho que é isso o que está querendo por que não gostou qual é quer encarar, sempre as pergunta ações um irresponsável cento e trinta cento e quarenta daqui a pouco cento e oitenta olha a curva caminhão estrada chuvosa, quase sempre me colocando no limite será que o chefe leu o relatório vão aprovar o meu aumento ninguém desconfia faltou só uma cópia não será que ela me viu abraçado à outra e se tudo ficar na base dos quinze por cento, de certa forma eu também já estava cansado de arriscar fio da navalha camisinha muita pimenta parceiras rodas sempre álcool cartão de crédito preto calça justa e algum veneno antimonotomia.
Era este mesmo um tempo de revelações pra mim. Sun tzu. Astrologia. Yoga e meditação. Tai-chi-chuan. A arte de manutenção de motocicletas. Viagens às montanhas do Peru. Comida japonesa. Botina de escalada e muita caminhada. Outro tanto de cuidado com as plantas que já morriam secas na sacada de meu apartamento de homem solteiro. E agora aquele curso de literatura argentina com Pola Oloixarac. O convite, vindo da minha colega de artes marciais. Abrir a mente. Antes, ela me abria muitas coisas eu vou viver eu vou amar demais a me lembrarem a todo momento a minha história:
A mãe decote outra tia a filha da vizinha minha professora de Matemática do quinto ano a primeira namorada o idiota do Pedrinho fazendo competição de escarrada de porra à distancia enquanto vinha pra cima de mim com aquela mão boba os jogos masculinos chute revidada porrada alguém separa o desprezo da guria da parada seis todos os dias na frente do colégio atrás de Luciana e dos quartinhos de banho escuro fechaduras janelas de banheiro e a fresta a me revelar a namoradinha da irmã do amigo e o olhar dos quatro irmãos repressão nunca poder jogar sinuca na mesa dos adultos o primeiro dinheiro roubado passeios de metrô caminhadas no zoológico encontra amigo com amiga e ao lado aparece a pessoa com deficiência deitado com ela no gramado quase estrupo nunca ninguém viu nunca mais aquela zona incidência cartão de visita marcando bobeira eu não sei o que o meu corpo abriga nessas noites quentes de verão oi tudo bem o que vai ser as compras sempre orientadas pelos amigos mais velhos aquela qual a loira baixinha muitos anos depois o compadre mostra fotos nuncas reveladas na pasta secreta do arquivo secreto no local mais secreto da casa casado segredos secretas mulheres casamento outras mulheres representações sociais trabalho igreja conselho o cidadão respeitável acima de qualquer suspeita caso emprego empresa empregados greve gravidades mas o carro sempre lavado na garagem pronto para a rodar a cidade passeio noturno põe a chave acelera nunca mais ela posando de star nunca mais o teu branco de doer nunca mais literatura argentina nunca mais
É quando saio da sala e até me esqueço da cena: bater a porta em cheio, macho hetero, o que é isso companheiro, está me estranhando, enquanto lá dentro ela provavelmente deve estar agora se perguntando o que deu nele, no Paulo Afonso.



Agosto de 2017
dedicated to D.A.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Garagem

 Eu queria ser a mulher de Paulo Afonso. Queria ser fosse só um tantinho de um dia. Assim, mais especificamente hoje. Hoje, quando ao acordar aí pelas nove da manhã eu avistei do outro lado da rua o meu vizinho Paulo Afonso. Ele sempre fica preso em suas rotinas: então ele abriu o grande portão de sua garagem e levou até sair definitivamente de casa.
Que será que ele faz ali? Eu pergunto e não consigo entender aquele homem. O meu vizinho entra no carro, abre a garagem e fica longo tempo parado com o motor de seu potente carro ligado. Para que ele faz aquilo? Fico a me perguntar porque fico tanto tempo observando o meu vizinho, ele lá, sentado diante do volante, mãos fixas, pescoço rígido, uma estátua, e só depois (muito depois) ele de súbito arranca – e parte.
Se eu fosse a minha vizinha, a esposa do famoso Doutor Paulo Afonso, eu ficaria preocupada. Seriamente preocupada! Afinal, aquele comportamento já bastante agravado de nosso advogado criminalista inspira cuidados; ainda mais pelo fato, notório, pelo menos notório para mim que não arredo pé do janelão de minha casa, de que sei, sei, tenho absoluta certeza, de que ele fica falando sozinho, talvez no viva-voz do aparelho celular. E mesmo daqui, de longe onde estou, eu posso ver nitidamente que além de nada ecológico, o meu vizinho da frente deve ter algum tipo de negócio escuso. Drogas? Contrabando? Mulheres? Isto. Deve ser alguma amante. Outra. Só pode.
Se eu fosse a vizinha da frente, a esposíssima chiquérrima do famoso sócio majoritário do escritório herdado de nobre família, se eu fosse ela eu cuidava melhor do meu homem, cujas posses a vizinhança classe A deste bairro jamais se pergunta a origem do dinheiro e a extravagância do modo de vida. Sinceramente, se eu fosse ela eu daria mais atenção para o coitadinho do Paulo Afonso. Parece tão sozinho hoje.
Sim, porque também não é todo dia que ele pode ligar insistentemente e deixar tantos recados para sua amante. E ter tudo que quer. Não todo dia. Se depender de mim, não.


Julho de 2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os Ratos no avião

CRÔNICA

Encontro-me no voo para Brasília, Capital Federal do Brasil. Suntuoso escrever isso quando a importância da viagem resume-se a mais um curso profissional, treinamento, o nome que queiram dar – ao final tudo são relações humanas, contatos, acertos, conversas e novos entendimentos que se formam entre as equipes – e o nome disso é trabalho. Ao meu redor os passageiros em seus ternos e smartphones me parecem um pouco como ratos que vão para o Planalto Central do Brasil em busca de dinheiro. Lembram Os ratos de Dyonélio Machado, o livro de 1934 que leio na escuridão desse tubo de potência, e enquanto não apagam as luzes sigo a leitura.
Ao meu lado, as luzes dos pequenos aparelhos alheios irradiam contaminação radioativa, mas eu fico pensando mesmo no pesadelo de Naziazeno, o protagonista de Os ratos, que cercado de agiotas e vigaristas (alguém ainda usa “vigarista” no Brasil?) segue a senda de um dia interminável.
Que livro.
Que país é este onde os ratos tomaram conta e agora muitos deles – não digo todos – estão aqui preenchendo as duzentas e pouco poltronas desta cápsula deflagrada em Porto Alegre, Província de São Pedro, e eu não vejo a hora de chegar, porque daqui a pouco apagam as luzes e eu não conseguirei chegar ao final da leitura – e, pior, nunca saberei quem deles aí dentre os presentes irá roer o meu livro.
Que livro!
Como o amanuense Naziazeno, eu também tenho medo de ratos.
E este livro, neste voo, confrontam dentro de mim o transcorrer fabuloso do texto  clássico de Dyonélio Machado com as confabulações incubadas das negociatas da Babilônia de desperdício e da corrupção da Cidade Plano Piloto, Terra Prometida, Asa Norte/ Asa Sul, ou como escreveu um deputado em 1922, “Brasília, ou qualquer outro”. Lá onde outros tantos Naziazenos miseráveis e excluídos da distribuição de renda nacional continuam a prestar seu trabalho e a alimentar a mordomia d´Os Grandes Ratos Nacionais.
Brasília, 9 horas.
Leiam o livro.


Junho de 2017