Quinta-feira, Maio 28, 2009

Era apenas uma letra esse

RELATO

Na conclusão de meu curso de Pós Graduação em Assessoria Linguística, o maior mico de que se tem notícia.
Fui entregar a dissertação de conclusão de curso – chamam a peça de "parecer" – e depois de fazer mais de trezentos e vinte e dez mil revisões, cada vez que eu olhava achava um erro, minúsculo, mas erro; cada vez que consertava e imprimia achava outro, e aquela coisa já estava ficando psicótica, não tinha mais fim, era noite e dia, imprime e corrige, confere e reimprime, descabela e acelera, volta de novo, relê, relê tudo de novo, embaralha, já não há café nem muito menos fé que chegue que baste, que rompa; eu já estava ficando meio louco com aquelas módicas 43 páginas (incluído aí capa, barba, cabelo, bigode e toda sorte de anexo e penduricalho), eu pensando: "se eu entregar isso aqui com algum erro não serei um revisor"; duvidando: "como poderei trabalhar com revisão se entregar isso assim", eu pensando igual aquele personagem dos cartoons do meu passado, perdido nos anos 70, a hiena que dizia "oh céus, oh vida, oh azar", agora beirando a porta do Pós-Graduação, ao meu lado, quando entro na sala da secretaria.
Plaft.
O barulho dos dois maços encadernados quase matam de susto a garota da secretaria do Pós, a pessoa responsável por receber as angústias e os trabalhos dos acadêmicos. Tal era o silêncio da Universidade às 9h55min da manhã que ela pulou de susto.
Entreguei. Tão feliz, serelepe, missão cumprida, saí dali voando pelos poucos quilômetros da Avenida Orfanatrófio, aquela descida sem fim em direção ao centro da cidade, seguindo pela borda do rio, a paisagem estava azul e compensou as duas últimas semanas de escrita e reescrita, o trajeto acalmando a minha ansiedade de quem entrega a vida em pouco menos de 50 folhas. Foram alguns poucos minutos de desaceleração, dentro do carro, mãos calmas e cansadas ao volante, segui pelas encostas da cidade, o contorno do rio, a beleza desse lado da cidade, e eis então que já estou sentado no conforto de minha sala de trabalho quando toca o telefone:
"Edgar, o título do trabalho que tu revisou tem 'contrutor'?"
"Como é que é?"
"Está escrito ‘contrutor’ na capa, será que era para ficar assim? Às vezes o nome tem que ficar errado mesmo."
Duas horas depois estou eu de volta ao Alto Teresópolis, material todo impresso, duas vias, tudo encadernado, a cola quente da encadernação esquentando as minhas mãos nesses dia claro e frio, a segunda encadernação, desnecessária, ali custando o dobro, esvaziando o meu bolso, eu já estava novamente dentro do elevador, protegendo a relíquia, as páginas da minha formação acadêmica, tudo certo, agora tudo certo e acertado, tudo de novo, só que agora eu chego devagar, apanho a versão "errada", deposito a nova, digo um "Obrigado" e "Até breve", esperando que nada seja tão breve entre o ato da entrega e a entrega do ato, então aperto o botão da angústia (ou do alívio), o elevador chega, desço, caminho, aqui estou.
Tudo isso só por causa de uma maldita letra esse, umazinha, e foi o que bastou: não era "contutor" mas "construtor", e quase que eu estava apresentando o meu trabalho final de revisão sem revisão.
Maior mico.
Serei um revisor?

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Sala vazia

As crianças brincam na sala
O tempo passa
As crianças crescem, depois partem
Fico sentado
Na sala vazia, o tempo amassa

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Vícios

Em linha reta, são pouco mais de dez passos. Nem mais, nem menos. O tempo necessário para preparar o encontro de todas as manhãs. Dentro de poucos segundos ele estará mais uma vez diante dela, e os dois cruzarão incertos por olhares ocasionais (são duas pessoas que caminham pelas ruas desse balneário – e nada mais). Ele estará envolvido em sua estratégia antiga, preso à leitura de um livro, e hoje para impressionar traz preso às mãos o Romanceiro da Inconfidência; ela, seja quem for ela, estará sob qualquer estado de beleza aromático. Dele pode-se dizer que o hábito adquirido de ler caminhando hoje chama mais a atenção do que o seu jeito clandestino de olhar por baixo do boné, de cheirar os pontos austrais que realmente ele não conhece, desconfia. E vai pensar mais uma vez que quem não vê os olhos, as pernas sente. Ele voltará para casa e não terá com quem comentar o seu vício.
O seu vício é ter uma vida sem vícios.
Caminhar lendo. Observar a raridade dos perfumes. Simular situações. E quem sabe outras possibilidades...
Primeiro ele tem que chegar em casa.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

O queijo e seus derivados afetivos

CRÔNICAS A MEU FILHO

Estamos no café da manhã mais demorado da semana. No arrastar de um domingo sonolento, a hora do café se estende, e ficamos um tempo sentados entre afeto, xícaras e talheres. Esse é também o momento em que surgem os assuntos mais sérios entre um pai e seu filho: a esculhambação. Sei que não é muito correto incentivar a bagunça à mesa durante as refeições, mas se não fosse assim, eu agora me pergunto, que assunto eu teria para essas crônicas que deixo ao meu filho de sete anos? Viva a esculhambação!
Sempre aos domingos. Conhecido aqui em casa como o Dia do Queijo. Sempre temos um pedaço de queijo colonial sobre a mesa, seja trazido pelo avô, seja comprado no Mercado Público da cidade. Domingo é o dia dos trabalhos artísticos, das variações poéticas e das bobagens ditas entre uma e outra mordida de queijo; afinal, durante a semana tudo é tão corrido... A rotina é tomar o café, fazer o sanduíche e sair correndo em direção à primeira atividade do dia. As variações artísticas em torno do queijo, entre o pai bobalhão e seu filho encantado, ficam guardadas para o domingo. O dia da criatividade. Está claro que este não é um assunto que interesse a humanidade como um todo, mas o tema é capaz de provocar gotas preciosas de humor àquela que nos acompanha à mesa: a mãe do meu filho. No dia do descanso, o queijo vira o centro das palhaçadas e das pequenas repressões, diluídas na quietude de uma manhã lenta. Nada melhor, nessas horas, do que abandonar o empapado dos pijamas e lembrar a velha parábola sobre o queijo e a lógica. Viro-me para meu filho, forço um olhar sério e começo:
– Sabia que quanto mais queijo menos queijo?
Nos domingos é assim: as besteiras têm que ter um cunho científico.
– Mas como assim, pai?
Então eu preparo o suspense. Os dois me olham, sentados à minha frente, como se ainda estivessem dormindo acordados. Com uma leve batida na mesa, continuo:
– Meu filho, alguns queijos franceses têm tanto buraco e os buracos são tão grandes, mas tão grandes, que quanto mais queijo, mais buraco; e quanto mais buraco, menos queijo; logo, quanto mais queijo, menos queijo.
Ele me olha, torce o beiço, faz uma cara de deixa pra lá:
– Tá, pai, então corta mais uma fatia do queijo do vovô. E não corta tão fina como da outra vez.
Ao deslizar a faca sobre a superfície de nossa felicidade, fico um instante a pensar no queijo e seus derivados afetivos.

Segunda-feira, Março 30, 2009

A sonoplastia da jogada erguida

CRÔNICA ESPORTIVA DA SEMANA

É papel da crônica esportiva especializada informar o torcedor. Sabemos, porém, que nem tudo que acontece em campo vira informação. Muitos pequenos eventos passam longe das páginas de jornais, do replay da tevê e das crônicas de rádio. Muita coisa passa em branco, mesmo que seja sonora, barulhenta, ou para entrarmos no assunto de hoje, possui sonoplastia própria. Evidente que não me refiro às tecnologias de captação de áudio, tão comum nos esportes (e me vem à lembrança o tênis com seus jogadores solitários a gritar...). Falo aqui do gritos que ninguém escuta, excluídos, por certo, os xingamentos aos parentes mais próximos do árbitro. Falo do futebol amador, onde não há ninguém apitando, onde o único solitário é o goleiro, onde a integração coletiva é de uma polifonia que muito me lembra agora os esquemas narrativos de William Faulkner e seus múltiplos narradores. Enquanto agonizo é um bom exemplo disso, tanto na obra do norte-americano com no sofrimento em campo. O jogo é uma sequência de agonizamentos. O jogo é gritado.
O jogo do último sábado. Novamente lá estavam reunidos nove (número cabalístico), os Sentinelas, os homens de confiança escolhidos pelo nosso Alto Comitê Executivo de Organização do Futebol dos Sábados (ACEOFUS), braço direito e não-armado da COFLOB – Confraria Futebolístico Literária Olavo Bilac, organismo que em comum com o seu honoris founder tem apenas o parnasianismo do futebol. Foram esses nove heróis que deram continuidade ao ano de esquisitices futebolísticas da Coflob ora iniciado. E para surpresa geral da nação, fizeram um jogo muito bom de ser jogado. E gritado. Além de pegado, o jogo foi recheado de Som e Fúria (outro livro de Faulker que eu recomendo, porque entre os narradores há um débil mental). Aliás chamou a atenção no jogo de sábado não a capacidade mental de alguns, mas a vontade de gritar. Faulkner é mais real que o jogo que vimos. Isso enquanto agonizo.
Claro, existe uma explicação para tanto grito. Alguns, porque querem provocar os outros. Outros porque querem ser provocados para se sentirem mais motivados. Os primeiros são os corneteiros de sempre; o segundo grupo é liderado pelo goleiro-falante, mais conhecido como Marreco-caneleiro das Traves, porque está sempre a berrar. Existe, porém, alguns atletas que exigem trilha sonora de primeira. Dolby stereo. Gritos e Sussuros sem intervalo comercial. E feito um drama bergmanniano, um autêntico jogo de xadrez emocional, alguns jogadores da Coflob gostam de demarcar bem suas jogadas aos gritos. Seja exigindo faltas imaginárias, sejam orientando o bom posicionamento da pátria, seja simplesmente narrando o que acontece em campo (o Louco de Cati das traves) , ou finalmente seja garantindo a perfeita sonoplastia da jogada perdida. Foi o que aconteceu aos não-sei-quantos minutos da fase final, quando o artilheiro Asterix (se bem que poderia ser o vizinho, o gordo comilão aquele) avançou e da intermediária desferiu um golpe na bola (alguns não chutem, desferem golpes) arremessou a belezura para os quintos da linha de fundo, chutando a bola não em direção ao gol, mais em direção à bandeirinha de escanteio. O chute foi acompanhado de um medieval grito pré-histórico, e se confundo as fases históricas é justamente para mostrar o desarrazoado de algo tão injustificado, pois foi só um chute para longe do gol... Foi um grito erguido das profundezas da alma, de uma forma tão prehistoricamente gritado, como se fosse aquele chute tivesse se perdido na Idade das Trevas.
Realmente, o jogo é assustador.

Porto Alegre, 30 de março de 2009.

Quarta-feira, Março 25, 2009

Um segundo

Foi somente quando ela diminuiu as luzes, acomodou suas partes no prumo dos lençóis, olhou-me com sensualidade adquirida a poucos contos e reunida na enérgica curiosidade dos que se conhecem na esquina de trás (e que nunca irão se conhecer) que ela veio em movimentos lentos, veio se rindo toda por dentro e por um rastro de segundo foi me perguntando Quer dizer que você gosta de gordinhas? foi só então que eu percebi o engano de aparentar compreensão.
Olhei as notas. O meu senso prático e organizado em exposição permanente. Empilhadas, eram duas notas graúdas e dispostas na cabeceira da cama que eu avistava atrás de seus ombros paquidérmicos. O tempo, eu tinha pouco tempo. O teatro, pouco sabia.
Foi um segundo rápido a percorrer galerias, incitar muitas perguntas e outras tantas dúvidas, e poucas culpas, tudo solto em minha cabeça, tudo rodando dentro de um rosto que espera, o olhar preso na parede e na resposta deste que olha e não vê, deste que vê e tem a sensação de que está sozinho e de que nada havia naquele quarto além das promessas pagas em duas notas.
Elas me foram suficientes.

Sexta-feira, Março 13, 2009

Rio Soturno

Parou a camionete, o motor enfim entregue ao silêncio da natureza. Olhou para o lado. O vidro sujo, os restos da estrada e o barro atirado pela rodas do estradeiro, do velho Jeep em que estava assentado com seus pensamentos, tudo isso dificultava a visão do rio. Mas ele estava ali, próximo, correndo, silencioso, rasteiro, guardando algum mistério. Talvez escondesse algo que Luís, o motorista ali parado, não conseguisse ver, mas intuía. Seu espírito aventureiro, tão elogiado dias atrás pela diretoria do Clube dos Jipeiros, estava, afinal, prestes a descobrir porque o Rio Soturno levava aquele nome. Era uma descoberta, e era preciso uma descoberta para ganhar o cobiçado certificado de aventureiro do clube. Faltava um único ato, identificar e informar ao mundo que um lugar inóspito e não explorado fora descoberto. A paisagem, contudo, transmitia calma; a noite caminhava no céu áspero e os últimos restos de vermelho refletiam nas águas escuras do Soturno. E mais uma vez Luís pensou na inferioridade de ser um jipeiro há tanto tempo e há tanto tempo ainda não ter descoberto nada.
O rio, calmo, escondia em uma de suas curvas, lá adiante, um pequeno casebre, àquela hora ainda às escuras. Sentado na frente da varanda da pequena casa, podia-se ver, mesmo de longe, um homem. Era a oportunidade.
Ligou o carro, e o ronco do motor espantou o silêncio e toda a vida ao redor. A revoada não distraiu o jipeiro. Lento, ele foi movimentando aquela estrutura metálica e fortificada, não demorou para encostar ao portão da casa. Tudo ali era de uma decadência assustadora. A chegada da noite não apenas acentuava as cores pálidas do cenário como escondia o rosto do velho homem sentado no vazio de um banco. Diante das águas do Soturno, fixo, ele olhava.
As boas-noites foram lentas, e as palavras seguintes, sobre o tempo, o fim da tarde, a noite, resumiram-se quase que tão-somente às perguntas de Luís e ao sim, ah-rã, talvez do velho senhor. No momento certo, angustiado pela chegada da noite e pelos monossílabos do outro, Luís precipitou a pergunta.
Um raio cortou o céu no mesmo instante. Resposta não houve. A chuva caminhava. E no minuto seguinte, mesmo que os minutos fossem dias naquele sopé de mundo, o homem sentado levantou-se, apanhou o que parecia ser uma mala ou valise, cruzou pela ansiedade de Luís e pelos faróis acessos do Jipe, cortou a estrada, e num vão da mata, entrou rio adentro.
O farol da direita piscou; era bem possível que a lâmpada, entregue aos dias de procura, queimasse antes de retornar à cidade. A estrada era longa, sinuosa e o silêncio escuro do Rio Soturno acompanharia Luís e suas perguntas.

Segunda-feira, Março 02, 2009

Hei de te esquecer

(Hoje)
Hoje, passeando por paisagens conhecidas, antes navegadas, correndo meus dedos na impaciência do brilho falso de nossa mesa de reuniões, eram os meus olhos que mergulhavam na memória de outros passeios, estes pretéritos, recolhidos e perfeitos, atrás, meses de procura, de encontros em ambientes fechados e agora esse circuito compacto de olhares alheios a nos vigiarem, é ali que meus dedos escorregam pelo declive de sua geografia repisada, memória estacionada, balanço de outras passagens, desafios, abraços, tropeços, afetos, tudo recolhido à minha frente nesse estreito limite de indecência e territorialidade, separados que estamos pelo tampo de vidro e dois assentos, neste instante então em que me vejo pasmo com a visão opaca do brilho morto dos cabelos dela, ao mesmo tempo em que me lembro da conveniência de ter dito não, outro dia, meses atrás, em outro lugar, quando finalmente me decidi e levantei e abri a porta e fui dizendo tchau, enquanto apalpava a lâmina fria que carregava no bolso, pronta como estava para ser usada em nosso último encontro, formalidade que cruza como um risco a fórmica desta mesa, pula da memória, cai desse passeio para territórios vizinhos, nos domínios dela, outrora meus, essa lembrança perturba o meu entendimento e não ouço nada ao meu redor, pois a dor na mente é como o toque da lâmina na mão que apalpava, minutos antes, o seu ventre improdutivo de mulher deitada, à espera, enquanto a esperam, então eu disse não e ela ficou deitada, a imagem de uma morte sem brilho deixada naquele quarto de hotel, agora ressurge à minha frente, mas é uma imagem sem vida, a lembrança de um reto equívoco, liso, escorregadio, porém passado e definitivo, pois apesar de seus olhos vagarem nas colinas do meu desconforto, este tormento me escapa, reflui, e consigo evitar seus olhos, evitamos, passeamos entre canetas e relatórios, olhares e desculpas jogadas na mesa, improváveis, impossibilidades ditas entre o desejo e a falta de coragem, a mesma de dizer não, e foi dito, e disse, e decidido levanto a mão e peço a palavra ao diretor.
(Eu hei de esquecê-la.)

Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

O novo recorde

Sentado na pequena mesa de seu conjugado, Carlos folheia com verdadeiro interesse a última edição do “Livro dos Recordes” que lhe chegou hoje. Com paciência de descobridor, ele vira cada página, e a cada página vê a infinidade de instâncias inúteis e inacabadas em que pode se transformar a vida de uma pessoa na busca de um novo recorde. Mas não liga, por um minuto ele esquece – já virou a página. Termina, olha a estante, admira sua coleção. Levanta e deposita o volume ao lado dos outros. No caminho, respira o pouco que resta do ar viciado do apartamento de solteiro, janelas fechadas, longe dos curiosos. Olha o livro mais uma vez e dá um suspiro: “O ser humano surpreende”, diz em voz alta para si mesmo; ele, o único morador desse pequeno apartamento de periferia, sala-quarto-cozinha; a essa hora, o único morador acordado num raio de dez blocos de apartamentos.
É nesse momento que perceber que já é a 54ª edição do famoso livro que adquire todo ano. E é quase um recorde. Todas as noites, antes de dormir, ele acaricia a sua coleção. Dormir ao som das explosões de novas marcas. Cada noite, uma noite.
Então ele apaga a luz, caminha os olhos pelas sombras do apartamento, entra no quarto, retira os sapatos (mas não a importância das coisas) e deita vestido. Longo tempo ainda espia a ponta da estante que enxerga ali do quarto. Fica imaginando o seu nome estampado na edição do ano que vem.
Acordado, ele sonha com o novo recorde.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Ponte

CRÔNICAS A MEU FILHO

No centro da sala, o menino está ao piano. É hora do ensaio. Entre a Ponte de Londres e a Canção dos meninos franceses ele desfila seus dedos pelo piano de 120 anos. Nem um pouco intimidado, ele dança sentado num sobe e desce que acompanha as melodias. As teclas são duras para um menino de sete anos, mas também são como a estrada que o guia nas suas primeiras improvisações. Ele inventa entre uma música e outra. De repente ele dá um salto, apanha a pasta da escola e puxa de lá uma partitura nova e inicia a canção dos Pequenos companheiros de jogo. Pode parecer que sim, mas ele não conhece essa partitura e mesmo assim parece um brinquedo. A estrada, antes uma linha reta sem obstáculos e com pequenas ondulações, agora aparece à sua frente cheia de buracos, exige paradas, e ele para; exige suspiros e bufadas, e ele bufa. A irritação dura pouco; ele vence essa etapa, avança um pouco mais, recua, para de novo. Árduo o aprendizado musical, mas parece estar mesmo com os companheiros de jogo, jogando. Até que enfim avança e chega à ponte. Eis o pequeno trecho da música que ele ainda não domina por completo e por isso não consegue passar; mas ele não desiste, é valente, deve estar suando, e daqui, sentado, posso ver como é estreita a passagem, ele consegue atravessar a linha imaginária de teclas – a sequencia que o fará concluir, nesta tarde, essa música.
Ele pula, olha para trás (como se estivesse sentado no carro, a imagem minúscula no espelho), olha e me diz que cruzou a ponte, que ela ficou para trás.
Ganhamos a tarde e mais uma música no repertório.

Domingo, Dezembro 28, 2008

Curto circuito fechado

Os passos. O movimento. A aproximação. O olhar. A identificação. A conferência. As roupas. A ausência delas. O olhar. A aproximação. O primeiro passo. O limite. O toque. A conferência. A identificação. O prazer. O toque. O avanço. O recuo. O último ponto. O último passo. O olhar. O sentimento. A ausência dele. O vazio. O ato. A insanidade. A loucura. A fuga. A separação. A falta de sentimento. O desprezo. O olhar. O afastamento. A distância. Os passos. A fuga. A constatação. A loucura. O curto circuito.

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

Danos

Há tempos procurava um trabalho que não danifique o homem. De fábrica em fábrica, passando pelo comércio de peças, o setor de serviços, transportes e telecomunicações, ele caminhou mundos, moveu páginas de classificados, longas caminhadas, feito um trapo, fina camada de osso, ele ali chegou.
Era um ferro-velho.
Com o tempo, apegou-se ao lugar, aos cheiros, às cores, à ausência de cor, à presença de ruídos, o corre-corre de máquinas e implementos, os grandes riscos, a falta de risco, acomodação. Ali ficou. Depois de um tempo, criou intimidade com o proprietário, pediu licença, montou sua casa com restos de sucatas.
Foi muito tempo depois, num final de tarde, quando viu sua imagem refletida no espelho de um velho Jeep abandonado (não havia espelhos no ferro-velho), notou que estava com a cor do lugar, que não havia nada ao fundo, que havia chegado ao fundo do poço.
Ao redor, pó, pedra, confusão.
No rosto, graxa, fuligem, fragmentos perdidos, poucas lembranças, falta de imaginação.
Sem idéias, caminhou em direção à sua acomodação; dormiu a noite inteira. Era preciso amaciar a dor de mais um dia de trabalho.
Naquela noite, dormiu de mais; acordou com a grande máquina de prensar sucatas carregando sua casa. O operador era novo, seu primeiro dia.
Acordou retorcido, depois esmagado. Peça danificada que não deram falta.

Domingo, Novembro 16, 2008

Zero

PROJETO DE RESENHA

A vontade de morder todas as letras, engolir os parágrafos, um a um, e depois escrever sobre esse livro que me perturbou bastante há 15 anos atrás, e muito mais, muito tempo depois, nessa segunda leitura. Falo de Zero, romance político, caótico e visceral de Ignácio de Loyola Brandão, escrito numa época de repressão. A nossa.

A multiplicidade de formas e estilos. A polifonia dos discursos. A convocação do leitor para participar dessa concha de retalhos sobre a ausência de sentimentos, sobre as vísceras humanas. A sobreposição de narradores. O impacto coletivo da loucura do mundo sobre as personagens que tentam entender o que lhes acontece. Os diferentes pontos de vista sobre o político e o individual, sobre o cruel e o lírico. O social como elemento desagregador; o elemento político como instância distante e indiferente a dispor sobre o destino das personagens. A história narrada como um patchwork a ser montado pelo leitor, ora avançando, ora retrocedendo, mas sempre em direção ao caos, às formas totalitárias de repressão, à tentativa de sobreviver. Um romance urgente, atual, perturbador. A história do nosso país.

Gostaria um dia de ter a coragem de escrever sobre esse livro.

Domingo, Novembro 02, 2008

A rachadura

Numa manhã, ao pisar os restos de uma noite mal dormida, J.B. sentiu o braço escorrer-lhe como um galho despencando da árvore. Estava se sentindo diferente, e acreditou ainda estar dormindo e sonhando. Seu esforço concentrou-se em levantar o dorso, e um estalo forte de madeira rachada o fez voltar-se ao quarto, ao leito, ao estado rígido em que se encontrava e assim ficou.

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

Na sala de aula

Em 3019 o governo decidiu derrubar todos os estádios de futebol e construir escolas / No último jogo, o lendário zagueiro Tobias da Silva estica-se todo e salva em cima da linha o que seria o gol que daria o título ao time adversário / Quarenta anos depois, Pedro, o neto de Tobias, organiza uma partida em homenagem ao avô / Quando a professora chegou, crianças jogavam bola dentro da sala de aula / A lousa era a goleira / o neto, o herói do jogo / Ela entra grita Todos para suas cadeiras / A professora aperta o botão que prende as crianças ao assento, toma duas pílulas que abrem a memória dos docentes para os fatos históricos que devem ser esquecidos / a recomendação é do governo central / e faz uma pergunta para a classe / Ninguém sabe responder o nome do estádio destruído / o último / o estádio-mártir / Em 3059 os alunos tinham problemas de concentração.