domingo, 15 de agosto de 2010

O prazer dos recibos

O papel era uma tira pequena. Números, informações, assinatura. Um serviço.
Um fato tardio e de ação lenta.
Iniciava toda vez que decidia invadir os letreiros luminosos, associar convites, aceitar o jogo. Ocorria sempre no primeiro dia útil ao pagamento.
O seu.
Subia a escada (o mesmo corrimão que muitas outras mãos masculinas já digitaram), escolhia o quarto, sentava à beira da cama, depois a espera, a chegada, os sorrisos, o correto proceder de quem conhece as regras do encontro. E depois o pagamento.
Naquele dia
Onde o recibo, ele perguntou.
Ninguém pede, respondeu a garota dos fortes cílios; respondeu ao mesmo tempo em que apanhava as notas e se vestia.

Noite após noite.
Ruas enlameadas
Becos sórdidos
Pensões fétidas encaminhadas por viciados
Nos doces vícios da noite elegante ele vagava (suas caminhadas sempre o levavam ao eterno roçar-se).
A certeza.
O convite (era uma piscada)
A busca pelos recibos.
E o prazer em meia hora.

Confuso, rápido.

Certo dia, no meio da noite, um encontro.
Aquilo que se convencionou chamar de agraciação.
Ou pagamento.
E na contraprestação, fragmentos dispersos de um inequívoco e raro prazer.
O pulsar nos lençóis.
E o prazer dos recibos.

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