quarta-feira, 26 de junho de 2013

Garrafa debaixo do braço

Café, mesa. Acorda. Antes água no rosto. Desce. Tomar cuidado não cair escadas. São 6 da manhã. Depois, às 7, levar o filho à escola, ao colégio, ao lugar de estudar. Trânsito tenso, temperatura mínima. Os primeiros animais. Soltos. Volta. Banho. Minutos contados. Hoje terá que ir para o trabalho de lotação. O carro deixou no Centro. A condução, cheia. O gordo sentado ao lado não tem simpatia nos braços e no perfume. Solavanco, da lotação, refletem no rebolar da moça de 35. Chega. Chuva. Corta. Caminhada. Molhado. Saco. Pagar conta atrasada hábito tornou-se. Gentileza do primeiro porteiro, da moça, das informações, menos dessa do caixa. Preocupada com o destino da colega. Sem aliança, ela, nem me olha, nenhuma mensagem capaz de responder a pergunta: Quer conversar? Sozinho nas ruas repara na garrafa que o outro, às 8 da manhã, esconde debaixo do braço. Imagina o alcoolismo tomando conta do seu dia. Ainda não, mais tarde. Antes: trabalho, colegas, perguntas ignóbeis. Horário. Passagem lenta. Almoço. Irregular. Na volta, café Emoção: forte, explosivo, convulsão. Daqui pra lá, de lá pra cá. Já são 6 da tarde. Aqui, no Sul, escuro. Convite. Lançamento do livro. Chega. O autor já está mais-do-que alegre. O outro, o da fila, atrás, de nome apenas Ben, lembra trecho de encontros anteriores. Quais? Sabe que há certa confusão etílica em suas palavras, e é bem possível que o esteja confundindo com a próxima tarefa: o autógrafo. Simpatia. Pergunta sobre os projetos, os meus, realmente os escritores são artistas da fala dissimulada. A mesma que em mim engole no trânsito mais uma vez (por que fui pegar o carro?), e agora um congestionamento do tamanho do nosso processo civilizatório gaudério (onde a minha lança?) me engole por longa hora e meia e à noite, ali me encontro na sala grande, quieto no meu canto lendo as dez páginas finais Ithaca Road em homenagem ao amigo que fez longos circunlóquios e abonou o meu livro – agora vale mais, agora vale menos – com o seu autógrafo, só que agora, adiante no dia, a chatice de uma reunião em que pretendo-me estar e ficar calado. E acontece que a partilhada leitura, concluída minutos antes do sino e da voz imperial da presidente da comissão não-sei-qual a nos dizer “Podemos começar?” e a porrice de velhos discursos deslavados agora incendeiam a minha paciência (zero) estoura porque a proposta indecente bate palmas para a iniciativa privada e esquece o coletivo em tempos estes de ebulição, e então eu já sou de novo o animal encolerizado que vai acabar a noite em indelicadezas pré-nupciais, e a seguir no ato-fato contínuo de não deitar-me naqueles lençóis com a esposa-amada e sim entrega-se à tevê e à última garrafa, que escondida debaixo do braço vai parar no latão do lixo, quando cruzo de volta e vejo que já bateu uma da manhã do outro dia. O dia em que ainda não aconteci.

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