sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Maurílio

 

Quarenta minutos de caminhada e o amor escolher de acabar daquela maneira, no meio da Avenida Presidente Franklin Roosevelt, Quarto Distrito, Capital, nem há nada de tão especial ou romântico neste nome, um presidente, já sei, mas sou uma universitária, quer dizer uma recém-formada que veio até este lugar em busca de um emprego, e quero pensar que não há nada de extraordinário em descobrir que Maurílio não daria, nunca deveria ter confiado nele, o primo deslumbrado, e, no entanto, foi preciso caminhar bons quarteirões para descobrir um pateta ao meu lado, começou quando o convidei, hoje cedo, para me acompanhar naquela seleção de emprego, o cara tinha chegado do interior dia atrás e estava hospedado lá em casa, e foi aquilo, as conversas para atualizar sobre o pessoal “lá de fora”, galinhada no sábado, domingo Fantástico, me disse que ficou meio assustado aqui na capital, outro dia bateu à porta do meu quarto para confessar que ficou encantado com o Bairro Santa Maria Goretti, diga, quem é que fica encantado com o Santa Maria Goretti?, Deus!, e daqui a pouco descubro que Maurílio ficou dando voltas por aí e fez amigos nos lugares errados, a turma barra do IAPI, os caras pra lá de mal-encarados, então convidei meu parente de Bom Princípio para ver se ele me ajudava, eu precisava trabalhara, fazer algo longe de casa, no início, era algo mais para sair um pouco da barra da saia da minha mãe, então aproveitei ontem à noite, coloquei uma camisola e bati no quarto de Maurílio, disse-lhe que eu precisava arranjar um emprego, casamento, casa, dinheiro para o aluguel, claro, um pouco mais de liberdade (nem sei se ele sabe o que é isso), contei-lhe como era difícil para uma mulher conseguir um emprego de contabilidade em Porto Alegre nestes tempos, os homens tomavam conta de tudo, Maurílio se resumiu a perguntar por que escolhi contabilidade, então lhe expliquei como foi que tinha feito cinco anos atrás, um domingo abri o jornal, procurei bem no caderno dos classificados, quando comecei a contar ele me interrompeu “quem é que procura um curso, uma faculdade apenas pelo número de anúncios nos classificados do jornal?”, expliquei que minha mãe não havia gostado nenhum um pouco do meu pragmatismo germânico, isso de dizer que é filho de pai da colônia, mas minha mãe é brasileira, ela queria outra coisa para mim, enfermagem, sei lá, na época segurei as páginas do classificado na mão, mostrei a ela e respondi “que se tem emprego eu consigo”, e eu estava prestes a conseguir a vaga, estava decidida, eu pedi para Maurílio me acompanhar, era longe, noutro bairro, já tínhamos saído de casa fazia quarenta minutos, agora já estávamos perto, a duas quadras do escritório, Maurílio veio comigo, aquele molenga poderia servia de apoio, sabe-se lá quem eu vou encontrar naquele escritório de contadores, o casarão estava lá do outro lado da rua, a placa anunciava o nome da firma, apontei a ele o local, e quando fui agarrar o braço de Maurílio para atravessarmos a rua, notei que ele ficou preso na calçada, virou-se, desprendeu-se de mim e já caminhava no sentido contrário, passou a falar, mudou a voz, ficou elétrico, infantil, meio eufórico demais para oito da manhã, e depois me disse “espera aí um pouquinho”, eu já sabia, o sol batia naquela lataria dourada e sua reação foi imediata, ele não conhecia muito bem a cidade grande, carros, ônibus, linhas exclusivas, prédios, sinaleiras, e agora aquele Ford Galaxie novinho, brilhando estacionado na altura do número dois mil e quarenta e dois da avenida do presidente americano, eu olhei na direção do escritório, dava para ver o tamanho da fila de candidatos, Maurílio ficou rodeando aquele exemplar poderoso, veículo amigo da indústria do petróleo, o Presidente Geisel tinha falado da Crise de 1974, e eu só sei agora que era esse o nome do carro porque ele gritou o nome do carro, depois: “na minha cidade não tem isso. Um Galaxie!”, e foi aí que eu percebi o quanto ele era um deslumbrado, um inútil deslumbrado, e descobri que ele não me ajudaria, nem para namorado servia, porque pensei isso algum dia, eu só queria chegar naquele emprego com meu namorado, alguém que se parecesse minimamente com um namorado, eu já tinha imaginado que encontraria uma quantidade absurda de homens na seleção, a fila não mentia, as aulas na Faculdade de Contabilidade não deixaram dúvidas, a formatura, eu sozinha no meio dos homens, este universo dos contadores não é para mulheres, meu pai sempre avisou, mas o meu pai nunca chegou a ver sua única filha formar-se na Universidade Federal, morreu dois dias antes, e agora o meu instinto está me dizendo que eu não deveria atravessar esta avenida, não sozinha, nunca sozinha, mesmo assim o fiz, e agora na fila todos me olham, e acabou de sair lá de dentro do prédio um homem de terno e gravata, olhou-me um longo tempo, o tempo de quem devora, olhei para o chão, depois para o outro lado da rua, cadê o Maurílio?, se ao menos ele estivesse aqui ao meu lado, não, ele ainda está alisando o Galaxie, às oito da manhã, gritando "olha, o motor ainda está quente", e eu ainda estou aqui.